Mostrar mensagens com a etiqueta Joan Margarit. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joan Margarit. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de junho de 2018

ao teu amor não lhe perdoes nada




Solitário e furtivo, o homem do ramo
 anda por locais nocturnos à procura de casais. 
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
 numa noite que não tem cheiro a noite. 
E perdi-me pelas traseiras da vida. 
Uma mulher na sombra que não és tu 
roubou-te os olhos e chora. A cidade
 é uma exacta e monstruosa cópia.
 Como se o Cúpido já estivesse velho,
 passa cuspindo o vendedor de rosas.
 Enquanto se afasta penso: ao teu amor
 não lhe perdoes nada. Nem o seu final. 






Joan Margarit
 (Foto de Anna O)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018




Como as gaivotas 
 Atravessando o temporal
 aprendemos a planar. 
Sobrevoar a vida
 para avançar usando 
a violência do vento. 
Tal como as gaivotas. 







 Joan Margarit

terça-feira, 18 de julho de 2017




É já tempo de não esperar ninguém. 
Passa o amor, fugaz e silencioso 
como ao longe um comboio nocturno
 Não resta ninguém, é hora 
de voltar ao desolado reino do absurdo, 
a sentir culpa, ao vulgar medo
 de perder o que já estava perdido.
 À inútil e sórdida moral.
 É já hora de dar por vencido no trabalho,
 a sós, outro Inverno. 
Quantos faltam ainda, e que sentido
 tem esta vida onde te procurei, 
se chegou já a hora tão temida
 de comprovar que nunca exististe? 






 Joan Margarit (tradução de Vasco Gato)
 (Foto de Katia Chausheva)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

as cartas marcadas




Definitivamente, é o meu Outono, 
um tempo de alianças impossíveis,
 a idade vermelha de todos os perigos 
para homens maduros e miúdas solitárias. 
A idade do adultério e do olvido
 sem nenhuma esperança, a idade fria, 
a partida final contra nós mesmos.
 Mantenho-me à mesa, sem esperar a sorte, 
neste jogo já não entra o azar. 
É o tempo de fazer uma paciência 
com as cartas marcadas da vida. 







Joan Margarit

segunda-feira, 29 de maio de 2017

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não deites fora as cartas de amor




Elas não te abandonarão. 
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
 - essa flecha de sombra - 
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos 
ocultar-se-ão em ti, no fundo do espelho. 
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros. 
Decairás ainda mais 
e perderás até a poesia. 
O ruído frio da cidade nos vidros
 acabará por ser a tua única música, 
e as cartas de amor que tiveres guardado
 serão a tua última literatura. 



( gosto tanto deste poema)






 Joan Margarit