Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 11 de junho de 2018
ao teu amor não lhe perdoes nada
Solitário e furtivo, o homem do ramo
anda por locais nocturnos à procura de casais.
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
numa noite que não tem cheiro a noite.
E perdi-me pelas traseiras da vida.
Uma mulher na sombra que não és tu
roubou-te os olhos e chora. A cidade
é uma exacta e monstruosa cópia.
Como se o Cúpido já estivesse velho,
passa cuspindo o vendedor de rosas.
Enquanto se afasta penso: ao teu amor
não lhe perdoes nada. Nem o seu final.
Joan Margarit
(Foto de Anna O)
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
terça-feira, 18 de julho de 2017
É já tempo de não esperar ninguém.
Passa o amor, fugaz e silencioso
como ao longe um comboio nocturno
Não resta ninguém, é hora
de voltar
ao desolado reino do absurdo,
a sentir culpa, ao vulgar medo
de perder o que já estava perdido.
À inútil e sórdida moral.
É já hora de dar por vencido
no trabalho,
a sós, outro Inverno.
Quantos faltam ainda, e que sentido
tem esta vida onde te procurei,
se chegou já a hora tão temida
de comprovar que nunca exististe?
Joan Margarit (tradução de Vasco Gato)
(Foto de Katia Chausheva)
quinta-feira, 6 de julho de 2017
as cartas marcadas
Definitivamente, é o meu Outono,
um tempo de alianças impossíveis,
a idade vermelha de todos os perigos
para homens maduros e miúdas solitárias.
A idade do adultério e do olvido
sem nenhuma esperança, a idade fria,
a partida final contra nós mesmos.
Mantenho-me à mesa, sem esperar a sorte,
neste jogo já não entra o azar.
É o tempo de fazer uma paciência
com as cartas marcadas da vida.
Joan Margarit
segunda-feira, 29 de maio de 2017
quinta-feira, 5 de maio de 2016
Não deites fora as cartas de amor
Elas não te abandonarão.
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
- essa flecha de sombra -
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo do espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua última literatura.
( gosto tanto deste poema)
Joan Margarit
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