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terça-feira, 10 de novembro de 2015




Não invoques a de ontem porque ela já foi embora
 Desde que tu partiste morreu já muitas vezes
 E embora tenha renascido já nunca foi a mesma
 Mais frágil mais ingénua mais tímida umas vezes 
outras vezes mais sábia mais triste mais murcha 
 Mas sempre distinta e outra vez sempre 
 Às vezes conformada mais cheia do meu sangue
 como se tudo fosse novo tudo recém comprado
 água sol e ar e sombra 
 Tão resignada que até sorrio ao espelho que não 
 Tenho frente a mim 
 E outras vezes em guerra tão em guerra
 que o meu tacto é punhal que me agride as veias
 e as flores me ferem e o céu me criva
 e até o meu próprio corpo me danifica
 - Morro e volto a nascer a cada manhã
 a angustiada de ontem hoje não a busques 
 A eufórica de hoje
 talvez esta mesma noite se suicide
 abraçada ao travesseiro






 Josefina Plá
(Foto de Josephine Cardin)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Vestidos secretos





A quem deixar o meu guarda-roupa oculto
o guarda-roupa fantasma
de todos os vestidos
que tive e que me abandonaram
os vestidos
que nunca tive e que vesti em segredo
O vestido que veio demasiado cedo
e que nunca me caiu bem
o vestido
que chegou já tarde
para ir à festa
quando eu já tinha adormecido

O vestido de criança
tão igual ao vestido
da primeira boneca
O da menina com o corpete já estreito
que apertava os seios doendo-lhe em casulo
O da adolescente que pressentia o homem
ladrão de túnicas na sesta sufocante

O vestido esquecido
da mulher que sob a sombra
do homem eclipse ocultou-se uma noite
e amanheceu como a lua cheia
surpreendida pela luz na metade do céu

O vestido de guerra rasgado
como bandeira
da mãe partida em dois
para sentir-se inteira

O vestido de luto que não levei para os meus
mortos
que ainda vivem

Os vestidos que alguém me emprestou para sonhar

...Quando chegar a morte também será um vestido
que não verei porque estarei a dormir
.




Josefina Plá