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quarta-feira, 5 de outubro de 2016




ou à janela no escuro a ouvir a coruja de cabeça vazia até ser difícil acreditar cada vez mais
 difícil de acreditar que alguma vez tivesses jurado amor a alguém ou alguém a ti até se tornar 
numa daquelas coisas que tu ias inventando para conter o vazio uma daquelas histórias para 
impedir que o vazio se viesse embrulhar num lençol 







 Samuel Beckett

quinta-feira, 29 de outubro de 2015




queria que o meu amor morresse 
e a chuva chovesse sobre o cemitério
 e sobre mim pelas ruas onde eu andar
 chorando aquel(e) que julgou amar-me 






 Samuel Beckett

domingo, 18 de outubro de 2015




a dizer outra vez
 se não me ensinares eu não aprendo
 a dizer outra vez que há uma última vez
 mesmo para as últimas vezes
 últimas vezes em que se implora 
últimas vezes em que se ama 
em que se sabe e não se sabe em que se finge 
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz 
se não me amares eu não serei amado
 se eu não te amar eu não amarei
 palavras rançosas a revolver outra vez no coração
 amor amor amor pancada da velha batedeira
 pilando o soro inalterável 
das palavras

aterrorizado outra vez
 de não amar
 de amar e não seres tu 
de ser amado e não ser por ti
 de saber e não saber e fingir
 e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar 
se te amarem 






 Samuel Beckett
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015




as horas tão pesadas depois de te ires embora 
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais 
as garras agarradas às cegas à cama da fome 
trazendo à tona os ossos os velhos amores
 órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
 sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do
 que nunca 
com a fome negra a manchar-lhes as caras
 a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
 nem nove meses
 nem nove vidas 





 Samuel Beckett
(Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015





Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite





 Samuel Beckett
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Instante



Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas 
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
  Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido 
Sem esta onda onde por fim
 Corpo e sombra juntos se anulam 
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios 
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
 Sem este céu posto de pé 
Sobre o pó do seu lastro
 Que faria eu eu faria como ontem e como hoje 
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho 
A errar e a mudar distante de toda a vida 
preso num espaço incontrolável 
Sem voz no meio das vozes 
Que se fecham comigo. 





 Samuel Beckett

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

As minhas estranhas dores




No entanto hei-de falar-vos delas um dia, se me lembrar, se puder, das minhas estranhas dores, em pormenor, distinguindo entre os diferentes géneros, para maior clareza, as do entendimento, as do coração ou afectivas, as da alma () e finalmente as do corpo propriamente dito, primeiro as internas ou latentes, depois as da superfície...
E, aos que tiverem a gentileza de me ouvir, falarei também, na mesma ocasião, de acordo com um sistema inventado já não me lembro por quem, daqueles instantes em que, sem se estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.


Samuel Beckett