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terça-feira, 15 de março de 2016

Os dias traidores




São esses que nos passam pelas mãos
 com gestos quotidianos, 
onde nunca acontece
 nada mais senão a vida 
com minúscula, quero dizer. 
Os do chá com limão enquanto lá fora chove 
e se fuma no café para passar a tarde, 
os do regresso a casa pelas ruas do costume. 
São os dias das coisas pequenas
 que secretamente pactuam connosco 
o peso dos anos. 
Os dias traidores: 
silenciosos, amáveis 
são o futuro que pouco a pouco aproximam 
o oculto abraço da morte
 com a mesma doçura
 com que os braços do amigo acolhem o meu cansaço. 






 Silvia Ugidos
 (Foto de Katia Chausheva)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016




Tal como qualquer cidade 
também nós escondemos 
turvos itinerários, edifícios arruinados, 
escuras vielas de rancor ou desejo,
 arrabaldes de medo ou parques para o amor, 
cantos em penumbra onde ocultar segredos, 
praças que nunca visitamos
 e aborrecidos museus onde expor lembranças 
que não interessam a ninguém. 
A nós 
também nos habitam cidadãos terríveis: 
funcionários do tédio, 
mensageiros de moto levando para muito longe
 o pequeno embrulho - primoroso e com laço- 
dos remorsos. 
Viajantes que passam por nós
 com as suas malas a caminho de outros corpos 
e sobretudo
 transeuntes alheios à nossa própria vontade,
 incivis e teimosos; 
têm nomes ridículos
 tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
 e especulam- como vulgares comerciantes- 
com o preço
 por metro quadrado do nosso coração. 






 Silvia Ugidos
 (Trad por Joaquim Manuel Magalhães)