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quarta-feira, 9 de outubro de 2024

era




Era um pássaro alto como um mapa
 e que devorava o azul 
 como nós devoramos o nosso amor. 

Era a sombra de uma mão sozinha
 num espaço impossivelmente vasto 
 perdido na sua própria extensão. 

Era a chegada de uma muito longa viagem 
 diante de uma porta de sal
 dentro de um pequeno diamante. 

Era um arranha-céus
 regressado do fundo do mar. 

Era um mar em forma de serpente 
 dentro da sombra de um lírio. 

Era a areia e o vento 
 como escravos
 atados por dentro ao azul do luar. 







 Artur do Cruzeiro Seixas

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

não sei



 

Como pode
 a mais frágil borboleta
 transportar em si
 montanhas
 cidades rios oceanos 
 a bandeira caída no azeite
 o poente cigano que pede boleia
 a nuvem em tamanho natural
 a metafísica do sangue
 o véu em chamas
 a casa feita de água 
 o vento batendo portas e janelas 
 ao longo deste corredor feito de palavras
 
e como se isso fosse pouco
 eu e a tua ausência






 Artur do Cruzeiro Seixas
 (Foto de Cristina Coral)