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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

pedaços



Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
 cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
 tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
 para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
 inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
 em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
 oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
 é que não sei onde guardei as instruções de montagem. 






 Carlos Alberto Machado
 (Foto de Ezgi Polat)

terça-feira, 26 de junho de 2018

e eu fico a arrumar as minhas mãos



Sónia Silva 


Ofereces-me uma pedra negra mágica que trazes do norte
 e as minhas palavras e as minhas mãos detêm-se sem saber
 por quanto tempo irão ficar na soleira da noite e do dia 
 tacteamos os corpos em busca de memórias adormecidas
 ocultas por sucessivas camadas de palavras por dizer
 deslizamos para o chão sem resposta e o fumo sobe 
 equilibra-se em nuvem sobre as nossas cabeças e evola-se
 em direcção a uma lua vermelha momentaneamente apagada
 ao som de bob marley fazes as malas e partes e eu fico
 a arrumar as minhas mãos e as palavras atrapalhadas
 no fumo desorientado pela ausência de um ponto cardeal
 junto cuidadosamente os teus cabelos rubros perdidos 
 entranço uma bola de fogo e guardo-a na memória 
 acendo uma dúzia de paus de incenso e imagino uma igreja
 de adoradores do silêncio que escorre por entre as preces
 a tua pedra negra regressa à minha mão fechada
 e ilumina como um sol a minha noite em claro 

Virás por uma palavra? 






 Carlos Alberto Machado

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Por vezes não sabemos o que fazer




por vezes não sabemos o que fazer

 — hoje apenas resta esta frase
 a sinalizar em ferida uma falha 
— sem esperança dela irradiar
 cornucópia luminosa braseiro
 ficamos imobilizados no mundo 
sem contorno ou profundidade
 sem mão ou palavra para erguer
 alguma coisa se afasta de nós
 irremediavelmente. 







 Carlos Alberto Machado

sexta-feira, 30 de outubro de 2015




Quando desapareceu o último porto de abrigo
 refugiei-me no lugar comum da tristeza 
a fechar feridas antigas a perdoar traições
 talvez um dia possa tentar tudo de novo 
com o despudor de todos os recomeços. 






 Carlos Alberto Machado
 (Foto de Anna O)

segunda-feira, 6 de abril de 2015




Como todos os seres comuns, fiz as minhas feridas. 
 Umas cicatrizaram. Outras não: 
 vão continuar abertas até que deixe de fazer sentido falar-se nelas 






Carlos Alberto Machado

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Dos dias



O musgo de presépio secou-te entre as pernas
 foram-se os natais que te iluminavam
 também as minhas palavras
 estão cansadas
 exauridas. 





 Carlos Alberto Machado
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nós aqui


Ainda bem que o natal acabou
logo que soaram as doze
descolei os lábios da mesa
vomitei as doçarias todas
para cima das notícias
que anunciavam a morte
algures onde o natal
é regado com sangue
e as rolhas das garrafas
são tiros cegos e certeiros
matam velhos e crianças
em natal ou em belém
para o ano haverá mais
se a dor aguentar até lá
nós aqui e eles no inferno
uma data é uma data
e é preciso comemorá-la
com sangue e com lágrimas
um dia os meus lábios ficarão para sempre
agarrados à toalha de linho.




Carlos Alberto Machado

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Poema de Natal


Assinaste o teu nome
em papel sufocante
impressão bem à vista
xis escudos por página
um livro repleto
de palavras amestradas
pra oferecer no Natal
ou isso ou umas peúgas.




Carlos Alberto Machado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Talvez palavras


Leves sulcos na dureza da pele. Talvez palavras.
Sob as pedras negras jazem palavras. Possuem a intensidade da luz de uma estrela morta há milhões de anos.
Fica sempre qualquer coisa por dizer. Por fazer. E nunca sei a diferença entre uma outra indecisão.
 


Carlos Alberto Machado

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras





Um cigarro
ninguém tem
um cigarro?
um copo de vinho
um amor perdido
uma causa iludida
uma angústia a mais?
alguém quer trocar
de veias
de sangue
de coração
de pulmões?
um cigarro
ao menos
ninguém tem
um cigarro?



Carlos Alberto Machado



domingo, 29 de maio de 2011