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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

sou



Estou viva. 
E penso que para além de mim
 não há quem o saiba. 

 Sou por definição inconsciente e
 vinda à mão, uma transparência-mulher
 uma dor não definível que me
 expõe à luz.






 Claudia R Sampaio
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 16 de março de 2018

essas saudades que vais tendo, são as minhas




Se eu desaparecer hoje 
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
 a escrever desde a ponta da língua à légua mais distante
 da minha vida, 
diz que compreendi. 

 Diz que sei que nada está onde é certo estar 
Que o amor súbito é a escada para o entendimento
 e come os espelhos
Diz que fui ar azul sobre campos de secura 
Estrada recta ao infinito, entre oliveiras, 
um acidente ao longe 
Que provei toda a sede quando engoli os homens 
Que queimei alegremente no ácido das palavras
 Que tombei em ricochete para que me vissem 
E que quando me viram me ergui animal 

 Diz que me viste nua, sempre 
Que corri por hospícios de olhos fechados 
 e a boca às avessas 
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
 e fui honesta na minha rente loucura 

 Diz que nunca esqueci a subida a um plátano 
 Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu no de ninguém 
Que fui sim, o halo frio que enchi com esta pena pela
 minha ausência 
E que tudo o que disse foi com silêncio 

 Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
 embora não queiras
 Que o teu corpo me serviu de andar nas pernas asmáticas 
 Que te agradeço ter-te oferecido lírios
 Que me reduziste o nojo da espécie 
Diz que eu, fui eu 

 Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
 - quanto em mim fui que não vivi 
quanto em ti é que fui eu? 

 Mas não te preocupes, não desapareço hoje 
Quando me conheceste já eu não existia, 
e tu sabes 
que essas saudades que vais tendo,
 são as minhas. 







 Cláudia R. Sampaio
 (Foto de Anka Zhuravleva)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

fogo posto




Uma vez quiseram-me louca, a arder
 e eu ardi com a discrição de
 um fogo posto
 porque a cura vai na mesma direcção
 que a nossa febre 

 Ateei-me como um relâmpago inesperado 
à luz do dia 
Eu parecia uma basílica em chamas 
de altar por estrear, a arder sozinha 







 Cláudia R. Sampaio

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

um homem de coração prefácio à espera de ser escrito




Tragam-me um homem que me levante com
 os olhos
 que em mim deposite o fim da tragédia
 com a graça de um balão acabado de encher
 tragam-me um homem que venha em baldes, 
solto e líquido para se misturar em mim 
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
 leve, leve, um principiante de pássaro
 tragam-me um homem que me ame em círculos
 que me ame em medos, que me ame em risos 
que me ame em autocarros de roda no precipício 
e me devolva as olheiras em gratidão de 
 estarmos vivos 
um homem homem, um homem criança
 um homem mulher
 um homem florido de noites nos cabelos 
um homem aquático em lume e inteiro
 um homem casa, um homem inverno
 um homem com boca de crepúsculo inclinado 
de coração prefácio à espera de ser escrito
 tragam-me um homem que me queira em mim 
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
 um homem mundo onde me possa perder
 e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
 atirando-me à ilusão de sermos duas 
 novíssimas nuvens em pé. 








 Cláudia R. Sampaio
 (Foto de Laura Makabresku)