Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

tenho medo



 

Não entendo, apenas sinto. 
 Tenho medo de um dia entender
 e deixar de sentir.






 Clarice Lispector

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

eu



Sou composta por urgências: 
 minhas alegrias são intensas; 
minhas tristezas, absolutas. 
Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.  
Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos. 
 Eu caminho desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. 
De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, 
 embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. 
 O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. 
E a minha lucidez é que é perigosa. 






Clarice Lispector

terça-feira, 26 de setembro de 2017

não tinha que ser





Não foi porque não tinha que ser. Quantas vezes eu já ouvi e repeti isso? Mas será que não era mesmo? Ou eu fiz não ser? Não sei. Só sei que o tempo não volta, e nesse caso específico, um dia tivémos outra oportunidade mas assim como as águas nunca voltam iguais, a oportunidade também não se mostrou a mesma. Aí lembro de uma citação do filme “2046” onde o amor tem a ver com o tempo: não adianta encontrar a pessoa certa demasiado tarde ou cedo demais. Então concluo que não foi a oportunidade que já não era a mesma, era o tempo que já era outro. Não estou com saudades não, nem arrependida. E confesso, faz tanto tempo que não sei nem contar os anos desde aquele dia. É que hoje vim de carona. E ouvimos um único cd o percurso inteiro. O mesmo cd que num fim de semana qualquer do passado tocou sem parar. Músicas que meses depois, num pedido de “perdão”, ganhei num dvd e num cartão que ainda não tive coragem de jogar fora. Nunca assisti esse DVD. Não queria nada que lembrasse aqueles dias. Mas a lembrança não obedece a gente. Nem os outros sabem dos segredos que guardamos, ou melhor, enterramos dentro da gente. Só sei que aquelas músicas tocaram hoje sem parar. Uma seguida da outra. E eu ainda sabia todas as letras. E como um filme, pela janela eu via uma estrada vazia, chuva no pará-brisa, árvores e uma mão na minha coxa.




Clarice Lispector

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

e o amor parado




Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci.
 Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia.
 Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados
 O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, 
e os anos demarcados na lisura da pedra, 
o musgo entreaberto pelo fio d’água correndo, 
e a nuvem no alto, e o homem amado repousando,
 e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. 
E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada,
 a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa. 








 Clarice Lispector

domingo, 31 de julho de 2016

A solidão é um luxo




Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. 
Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo





Clarice Lispector

domingo, 30 de agosto de 2015




Porque eu meu filho, eu só tenho fome.
 E esse modo instável de pegar no escuro uma maçã - sem que ela caia. 






 Clarice Lispector
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Essa menina


Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente
 - como em dores de parto - 
e vi que a menina em mim estava morrendo. 
Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias.
 E eis-me aqui. Dura, silenciosa, heroica. 
Sem menina dentro de mim.





 Clarice Lispector

domingo, 22 de setembro de 2013

Eu


Sou uma pergunta insistente, sem que eu ouça uma resposta.
 Nunca ninguém me respondeu.




Clarice Lispector
(foto de Katia Chausheva)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013

Cansaço


Não sei se quero descansar, por estar realmente cansada
ou se quero descansar para desistir



Clarice Lispector

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Post it


Não me lembro mais qual foi nosso começo.
Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser



Clarice Lispector

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Tanta coisa


Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido,
de que haja tanta coisa em mim além do conhecido,
tanta coisa sempre silenciosa


  Clarice Lispector

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Perto do Coração Selvagem


Um dia, depois de viver sem tédio muitos iguais, viu-se diferente de si mesma. Estava cansada. Andou de um lado para outro. Ela própria não sabia o que queria. Pôs-se a cantar baixinho, com a boca fechada. Depois cansou-se e passou a pensar em coisas. Mas não o conseguia inteiramente. Dentro de si algo tentava parar. Ficou esperando e nada vinha para ela. Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste. Continuou a andar por vários dias e seus passos soavam como o cair de folhas mortas no chão. (...)
 Na verdade ela sempre fora duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente.


  Clarice Lispector

domingo, 30 de setembro de 2012

Faz de conta


Faz de conta que ela nao estava chorando por dentro,
 pois agora, mansamente, embora de olhos secos,
 o coração estava molhado.


Clarice Lispector

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dos dias



Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada…


Clarice Lispector

sexta-feira, 16 de março de 2012

Amanhecer


Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...


Clarice Lispector