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segunda-feira, 4 de março de 2024

promessas




Quando me cansar de voar ou a ferida estiver finalmente visível, 
promete-me que a faca será afiada e silenciosa. 
Que eu não a veja chegar, como se não tivesse passado uma vida
 a pressenti-la nas dobras do lençol, mortalha de tantas noites.
 E antes, dá-me de beber entre as mãos, 
conta-me de céus azuis, sem garras e sem abismos.
 Espera que o meu coração de novo pequenino 
se aninhe no calor das tuas veias  e se torne
  apenas a memória de um sobressalto contra a tua pele





 Inês Dias
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015




Se um dia me pedires, 
juro que te empresto 
o meu coração, tal como 
 guardei na boca o pequeno deus
 que te trazia tão curioso. 
A sério. Deixo-te tocar nele,
 sentir-lhe o peso, atirá-lo 
 contra a parede para depois
 o apanhares e retirares a pele 
de pêssego demasiado maduro. 

 Podes até queimá-lo - 
 com cuidado, por favor - 
 quando estiver mais frio; 
ou enterrar os restos debaixo
 das estrelícias, de propósito 
por saberes que não as suporto. 
Em troca, promete-me apenas 
 que depois me deixas fugir 
para saber como é isso de
 passar o resto da vida desembaraçada 
 finalmente desse peso morto. 






 Inês Dias
 (Foto Christian Schloe)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015




Os meus dedos já souberam de cor a perfeição. 
 A morte era o menos. 
Só a beleza nos parecia intolerável 
se não a despedaçássemos, 
voz por voz, compasso a compasso, 
numa harmonia mais dócil. Menos urgente 
do que os músculos que ensaiávamos 
todos os dias sem nos tocarmos.
 Agora ouço outras mãos
 a tactear o mesmo mistério e
 é como segredar, pianississimo, 
ao ouvido de alguém demasiado longe, 
quando afinal adormeceste apenas
 dentro de mim, com as garras
 cravadas ao de leve na memória






 Inês Dias
 (Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 20 de julho de 2015




A esperança é uma puta 
gorda, sentada esta noite
 numa cadeirinha de bonecas 
azul-Estádio. Incharam-lhe os pés 
de tanto buscar e balouça
 os sapatos ao descompasso 
de canções em que o nome
 nunca é o seu. 
 Exige pré-pagamento, 
garante que sai sempre 
como a sorte que nem sempre tem,
e depois cobra a fé por impulso, 
tapa o silêncio com luzes 
de natal, um vestido inflamável,
 gargalhadas de ponta e mola. 
 Cá fora as pombas adormeceram 
aplicadamente à espera de um sol igual,
 há constelações desmanchadas
 no asfalto. Ela é a última espectadora 
de mais uma última sessão, 
mas a tristeza continua emboscada, 
a tocar de costas para o mundo. 
 Apanha do chão uma ideia deixada a meio,
 acende-a, hesita por instantes 
 se serão mais estrangeiros os turistas, 
os imigrantes que prometem especialidades 
de um país que não é o seu nem este,
ou ela própria. Não regressa
 a casa com ninguém: 
volta a guardar-se inteira numa mala, 
só para se poder perder de vez. 






 Inês Dias

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Como quem se despe


Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.
 
Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.




Inês Dias