Mostrar mensagens com a etiqueta Inês Fonseca Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Inês Fonseca Santos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de março de 2019

fora de prazo



A infelicidade engorda mais 
 do que vinte tabletes 
 de chocolate Regina. 
 Mesmo partida aos quadrados 
 e embrulhada em prata
 para disfarçar, 
 tem mais calorias. É um veneno, 
 a infelicidade. Matou uns quantos
 pelo caminho e mesmo assim
 tem prosseguido ao longo dos séculos
 engolindo sulcos de tempo e 
 lamelas de comprimidos.
 Infelicidade, por seres minha, 
 tenho-te algum respeito.
 Gostava de mandar-te para. Mas
 é tão longe que, temo, 
 sentir-me-ia sem ti só 
 e, pior, infeliz. 

Sigo.
 De braço dado contigo. 
 Primeiro, pelo adro fora.
 Depois, pelo jardim fora. 
 Qual paraíso. 
 Não, isso não chega: sigo contigo
 pelo universo; cubro
 chineses, paquistaneses, neozelandeses 
 com o teu manto diáfano
 de choro.
 E é sempre contigo, 
 minha puta, que partilho
 a bandeja das recordações;
 é sempre contigo, minha puta fiel,
 que digo, num sorriso minúsculo e muito tímido:
 hoje o lanche é chocolates. 
 Come chocolates, pequena.

Porque, sabes?, 
 querer ser feliz não é pecado. Mas
 infelizmente já passou o prazo.







 Inês Fonseca Santos

segunda-feira, 14 de novembro de 2016




Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado; 
um rosto sem marcas, irreconhecível, 
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca. 
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te 
o coração do lado errado do peito. 






 Inês Fonseca Santos

segunda-feira, 5 de maio de 2014

As coisas nas pontas dos dedos


Cortam os vasos, as veias. Minúsculas, 
as coisas nas pontas dos dedos 
são feitas de vidro partido.
 Invisíveis aos olhos, levam com elas
 as nossas impressões 
digitais




 Inês Fonseca Santos
(Foto de Katia Chausheva)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Morada


Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos.
O teu nome está-me escrito nos sinais, sobre a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.
O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.




Inês Fonseca Santos

segunda-feira, 15 de julho de 2013

As coisas do corpo


Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito




Inês Fonseca Santos

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Bom dia

 

(...)
Quem me vai ler poesia,
 quem me vai escrever poesia,
quem me vai oferecer poesia,
quem me vai arrumar a poesia?




Inês Fonseca Santos

terça-feira, 18 de junho de 2013

As coisas

 

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas




Inês Fonseca Santos