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segunda-feira, 10 de junho de 2024

sem pecado





Por uma vez a velocidade foi um lugar firme
 entre as paredes. Tirei dela uma mão-cheia, 
duas, três. Não sei o que disseste_ o teu corpo 
era uma espécie de obstáculo à precisão, 
o erro reincidente na rotação de um compasso 

As árvores tinham pressa de chegar a qualquer lado, 
mas tu eras de uma seda mais veloz
 e corrias nos meus dedos sem remorso nem pecado 






 Rui Pires Cabral

sexta-feira, 5 de abril de 2024

é a vida




sim, já me lembro: a casa e a cama, 
o lugar à mesa, a pequena chama 

 - onde estás agora, sol branco, dilema
 quebrada a promessa, traído o poema?

 giram no vazio destroços, venenos, 
o pouco que sobra do mal que sabemos

 e ainda te sinto, mudado, disperso, 
na pista de dança, na berma de um verso 

- a noite, o exílio, a aposta perdida, 
bebes mais um copo, dizes que é a vida 









 Rui Pires Cabral

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

as tuas cartas




o tojo abundava nas vertentes, 
havia as rochas, os montes amarelos,
 o rumor fundo dos bichos na arcadura
 das chãs.
 entre o meu silêncio e o teu 
cresceu um verso com a tua boca 
perto dos meus sentidos. 
sabíamos que a chuva regressaria
 eventualmente. as tuas cartas 
 ainda as tenho. 






 Rui Pires Cabral

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

do que perdi





Outubro continua 
e a tristeza ainda precisa
 de muitas personagens
 secundárias. Regressam, 
indecisas, de certas 
regiões da consciência - 
pernoitam, conspiram, 
nos versos divagam
 por extremas cidades 
que não conheci
 - e algures, fechadas 
no quarto onde tudo 
começa, são ainda elas
 que me escrevem cartas
 e me pedem contas 
do que fui, do que perdi. 







 Rui Pires Cabral

quinta-feira, 22 de junho de 2023

qual é a tua razão de ser?





À vinda do supermercado
 diz-me o pequeno monstro 
que às vezes me faz companhia:
 «E qual é a tua razão de ser?» 

 Na rua, a tarde rola devagar 
entre prédios murchos — e ele
 acrescenta: «Não me digas 
que são os versos.»

 E ri-se 





 Rui Pires Cabral

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

alfabeto dos dias





Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.
 








Rui Pires Cabral

quinta-feira, 9 de abril de 2020

recomeço



Sonia Silva


Tu nunca quiseste pertencer. 
Só à ponta da navalha. Só no fundo do 
beco, encurralado. Meu Deus, que vocação
 para o desassossego 





 Rui Pires Cabral

domingo, 14 de julho de 2019

rente à primeira manhã



No fim da noite, no frio do táxi, pousas
 a cabeça no meu ombro--------- e assim entramos
 duma vez e inteiramente na nossa vida






 Rui Pires Cabral

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Fora do Lugar


A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas de trazer no bolso?
Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.




Rui Pires Cabral

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Janeiro


Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.


Rui Pires Cabral