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segunda-feira, 13 de março de 2023

pedaços de coisas



 

Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, 
que nos sentamos diante do rio e 
ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes : 
a tua solidão, por exemplo






 Vasco Gato

quinta-feira, 21 de julho de 2022

luz




eu trago a minha canção aberta
 à radiação dos últimos vestígios 
do corpo
 sessenta mil velas 
para unicamente esta noite
 para unicamente esta noite te dizer

 os holofotes acenderam-se 
os holofotes acenderam-se 

 as minhas mão viram as tuas mãos 






 Vasco Gato

quinta-feira, 19 de maio de 2022

como algo que germinou



 

o que levo dentro de mim 
são sobretudo coisas
 prestes a desabar 







Vasco Gato

domingo, 7 de junho de 2020

tocas-me?



Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio,
 onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo.








Vasco Gato

terça-feira, 20 de agosto de 2019

fogo posto



Para dizer que a tua porta ardia por fora e ninguém se importava. 
Que certas palavras interrompidas começaram a agitar-se na minha cabeça. 
Meti-me pelo teu fogo dentro, ninguém se importava, e disse tudo até ao fim. 
Nunca tinha dito tudo até ao fim. 






 Vasco Gato

terça-feira, 19 de março de 2019

quinta-feira, 4 de agosto de 2016




tenho uma praça fora do sítio. tenho uma árvore fora do sítio.
 tenho um homem, dentro de mim, fora do sítio. 






 Vasco Gato
 (Foto de Ezgi Polat)

domingo, 1 de maio de 2016

dos meus filhos




Agora que o indeciso mês assentou 
em dois ou três episódios - uma telha
 que se fez manancial onírico de dois gatos, 
por exemplo - posso recuperar 
o fio de música que me escapou todo o ano
 e despenhar-me sem pejo
 na intimidade com os gritos mais sinceros. 

 O que dissolve nas sombras desta casa
 é o vil trono da minha juventude






Vasco Gato
 "Primeiro Direito"

domingo, 29 de novembro de 2015




Preciso de ti para um poema 
Ofereço-te em troca o meu auto-retrato sincero. Tenho quarenta livros prontos para serem lidos. Tenho uma estratégia infalível para implementar a primavera. Tenho a segurança de um corpo cheio de insónias, pele de galinha, súbitos arrepios, termómetros para novecentas febres, saliva muito devagar, pés descalços, arrebatamentos incomunicáveis, fins de noite numa garrafa de vinho, estilhaços de quatrocentos orgasmos, comoções, paixões flagrantes, primeiros cuidados para jovens suicidas, lâmpadas que se queimaram nas minhas próprias mãos. 






 Vasco Gato

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Rusga



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em
 torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já 
eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora 
em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não
 funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus 
 prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio
 de excomunhão, devolva o seu corpo à indiscrição. Corpo
 no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães
 a flor absurda do prazer. 





 Vasco Gato
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Ninguém responde



Estou com a idade pousada nas mãos. 
Explico-me com dedicação aos berços fundos
 onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.
 Há na tristeza um perigo de terminar: 
o eterno outono parece belo 
a quem perdeu todas as sementes. 
 Pergunta-se um nome e ninguém responde. 
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio? 





 Vasco Gato
 (Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poemas perfeitos em noites escuras


Aqui o mar é sono perpétuo,
  câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.
Eu, que tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto
- as palavras falham, e essa é a comunicação.

Vasco Gato

quarta-feira, 14 de março de 2012

Tudo isto


Tudo isto já beijou a dúvida na boca. Tudo isto já fingiu ter tempo para regressar. Tudo isto já supôs que agora seria diferente. Tudo isto já se empenhou em derrotar seis ou sete pessoas. Tudo isto já foi roupa a secar e a proximidade da noite. Tudo isto já encantou o estrangeiro. Tudo isto já se sentou à espera de ver. Tudo isto já rasgou o que não interessava e o que demais interessava. Tudo isto já despiu a vergonha. Tudo isto já foi de avião à sua lucidez futura. Tudo isto já enfrentou o desespero com duas moedas apenas. Tudo isto já se cansou de buscar modos de dizer. Tudo isto já foi mercúrio. Tudo isto já caiu a meio da noite sem que ninguém lhe tocasse. Tudo isto já deu o nome errado. Tudo isto já pediu para trocar tabaco. Tudo isto já se intrometeu. Tudo isto já foi demais para caber num corpo. Tudo isto já mordeu os lábios por lhe sobrar o desejo. Tudo isto já comentou as notícias terríveis a mais de cinco metros de distância. Tudo isto já presenciou a morte e o nascimento. Tudo isto já permitiu que entrasse. Tudo isto já sentiu os nervos como cordas. Tudo isto já deixou alguém adormecer. Tudo isto já inalou o ópio suave do reencontro. Tudo isto já percebeu que pode acontecer.

Vasco Gato

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cansaço


Por vezes são estrelas que sobem
quando a água ocupa o espaço
e um brilho esquivo tropeça
no cansaço
do dia
No chão ainda morno
ardem pétalas sossegadamente
e há a melancolia de um pássaro

Na varanda esquecida

Vasco Gato

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tocas-me?


Sou um animal.

Necessito diariamente da transfusão de uma enorme quantidade de calor.


Tocas-me?


Vasco Gato

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Preciso


Custa-nos respirar,
a paixão exige-nos que nos abandonemos à ideia de uma asfixia:
Eu sem ti não posso assinar o tempo,
Preciso dos teus olhos de cidade devassada.

Vasco Gato