segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Essa mulher dentro de mim



Há uma mulher dentro de mim que não é gramática decomposta nem acento circunflexo. Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula. Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo. Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal. Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca. Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer. Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar. Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta, não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços, de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior. Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua. Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo. Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma. 





 Alice Turvo

sábado, 6 de setembro de 2014

Inventário



uma pilha de poemas impressos
 outra dos que foram perdidos
 e mais outra dos que ficaram por escrever
 uma prateleira com sonhos queimados
 quarenta e cinco amores frustrados 
um relógio sem ponteiros
 um gato imaginário que mia em silêncio
 um pássaro empalhado com a asa esquerda partida 
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta 





 Júlio Saraiva
(Foto de Anton Corbijn)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Instante



Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas 
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
  Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido 
Sem esta onda onde por fim
 Corpo e sombra juntos se anulam 
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios 
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
 Sem este céu posto de pé 
Sobre o pó do seu lastro
 Que faria eu eu faria como ontem e como hoje 
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho 
A errar e a mudar distante de toda a vida 
preso num espaço incontrolável 
Sem voz no meio das vozes 
Que se fecham comigo. 





 Samuel Beckett

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Estou ausente



Todos os dias digo, sussurrando,
 mantém o equilíbrio. Tudo espreita, 
tudo assusta, a vida inteira pende-te
 de um frágil fio e de uma sorte injusta.
 A tua vontade não pode muito. 
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.





 Amalia Bautista