domingo, 14 de junho de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015




Havia uma cidade em espanto linear a cavalo noutra cidade em geometria ambígua, um jardim era metade do outro, em que as pétalas andavam para trás e para diante, com o perfume trocado e o silêncio das cores tremendo no seu erro cheio de alvoroço florido, os arquitectos disseram: é preciso um novo espaço para estas duas pessoas que estão a pensar tanto com o corpo – e numa casa abria-se a porta que vigiava os corredores onde o pólen se acendia e dançava, e de repente a porta descerrava o espectáculo antigo do nascimento da lua num quarto escuro, via-se o que a lua sempre fez para trepar do soalho para o tecto pelas paredes docemente retardadas, era o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados, e alguém escrevia à máquina num dos planos de intersecção urbana, e a frase escrita aparecia com o seu rumor externo noutro sítio, mas agora via-se no meio de uma clareira de silêncio vivo, e ia-se apreendendo a nossa mútua nudez colocada no sentido da frase, nós éramos essa cidade tremendamente posta em uso, em toda a parte estavam mãos em vez de garfos e lâmpadas, e a frase era assim: o amor, as mãos ininterruptas. 





 Herberto Helder

quinta-feira, 11 de junho de 2015












Guardava alguns silêncios e também as coisas
 que não dissera por acaso. Guardava agora também
 esses acasos, brancos recados entre as palavras
 que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
 para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a 
dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão 
 Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos
 à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado,
 como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som
 das espigas, na planície, à passagem do vento. 
 Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo 
sem palavras; ou um vento de feição, um acaso
 que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando 
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias. 





 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 9 de junho de 2015




eu serei sempre a que abre as palavras na garganta 





 Maria Sousa