quarta-feira, 31 de março de 2010

Da tristeza

Minha alma está hoje triste até ao corpo.
Todo eu me doo, memória, olhos e braços.
Há como que um reumatismo em tudo quanto sou...




Fernando Pessoa
(Bernardo Soares /Livro do Desassossego)

terça-feira, 30 de março de 2010

Uma palavra


Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada... O amor é a solidão


José Luís Peixoto /Uma Casa Na Escuridão

sábado, 27 de março de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

Do cansaço


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Fernando Pessoa
(Alvaro de Campos)