sábado, 12 de maio de 2012

Pergunta ao vento


Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?
Dei o cravo e dei o lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não ?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 10 de maio de 2012

27 silêncios


tinhas razão, toda a razão, razão antes de tempo, razão tantos anos antes. viste numa fraqueza um desastre, escolheste os adjectivos que se iam tornar substantivos, e disseste que a vida não estava do meu lado. e foi então que me apresentaste a morte, apenas para que eu falasse com alguém enquanto tu viravas costas.







Pedro Mexia

quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

A outra


Quem escreve é um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do sono
Chega à mesa do almoço
  come a minha fome
Escreve o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Eunice Arruda

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Um nome



A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma
salta contra o mês de maio escrito.
A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre o coração e o umbigo.

Herberto Helder