segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Eu diria que sangra um ponto secreto do meu corpo


Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.





Herberto Helder

domingo, 8 de dezembro de 2013

Era meu


Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
Negro,
Envolto
Em longas
Chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.
 
 
 

  Maria Amélia Neto
 (Foto de Katia Chausheva)

sábado, 7 de dezembro de 2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Madiba


Do fundo desta noite que persiste
A  envolver-me em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.




 William Ernest Henley

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um dia


a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo





Pedro Sena-Lino

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um Diário destes não magoa



Um Diário destes não magoa, pensa a rapariga, folheando
O seu caderno: Apaga os passos que dei até aqui.
E imagina que a espera um espaço imenso. Páginas adiante,
A letra torna-se irregular, a simetria esvai-se confusa.
Não foi, certamente, o espaço que dela se abeirou. Não.
Também não foi o amor, como se poderia pensar.
Foi o Género. Pegou no Diário e fê-lo romance. É assim.
Só estranho o novo corpo que lhe foi dado.




Maria Gabriela Llansol
(Foto de Katia Chausheva)

Porque há lugares que eu gosto tanto   ( http://sketchesformysweetheartthedrunk.blogspot.pt/)