quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

sobre o meu corpo


Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado.
A verdade é que nunca soube o nome dessa flor
que nalguns olhos abre logo de madrugada.
 Agora para saber é tarde.
O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
 um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa

 É sobre o meu corpo que chove


  



 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

a invenção do amor



Em letras enormes do tamanho
 do medo da solidão da angústia
 um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
 se encontraram num bar de hotel
 numa tarde de chuva
 entre zunidos de conversa 
e inventaram o amor com carácter de urgência
 deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana 

 Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
 e fome de ternura 
e souberam entender-se sem palavras inúteis 







 Daniel Filipe

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

só para te dizer




Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite 
ou talvez tocar-te
e morrer





Al Berto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

lugares


Eu sei, parece-te que perdi o fio à meada, mas não. 
Tive de fazer parágrafo porque a pergunta pedia-me que te olhasse nos olhos
 e sabes que me perco sempre em qualquer dos lugares
 onde guardas a ternura







Sandra Costa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

quase um poema de amor



Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente.
 E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras  
Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto
Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima
 Eu – que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu
 Eu – que mudei de lume, que mudei de medos
 Eu – que mudei de planos, de lençóis, de secretária
 Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado
 Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, 
mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor. 





Filipa Leal