Miguel Martins
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
quinta-feira, 9 de junho de 2022
sexta-feira, 3 de junho de 2022
tudo passa
Que tudo passa. Os desmandos arbitrários de quem nos paga, o tornozelo torcido na falha da calçada, as derrotas do Benfica, o ranho verde dos putos, o céu cerrado de tristezas e de outras tantas promessas, a subida inesperada das taxas de juro, a pontada súbita de dó pelo sem-abrigo que nos ressona o álcool aos pés, a saudade do que não nos falta, o saldo negativo no banco, o desconsolo molhado da chuva e dos projectos por cumprir. Tudo passa, menos tu: uma espécie de fantasma, uma amálgama de plasma trocista que, em vez de me destapar os lençóis e me puxar os pés ao fundo da cama, me destapa e repuxa os sentidos, picando-me o ponto com aquela assiduidade contrariada de um funcionário por conta de outrém.
Sofia Vieira
quinta-feira, 2 de junho de 2022
renegar
Não ser marinheiro. Não ser coisa alguma. E, ainda assim, zarpar deste lugar de fama sem proveito. Aportar às quatro estações, simultâneamente, num único cachimbo (milho de cerejeira). Comer mar, beber sal, respirar resina, cobrir a pele de lâminas de vinho. Renegar renegar. (O tempo). Ressarcir a cinta do silêncio. Derrimir a porca rouquidão. Arrancar às costas a tareia, às pernas o balastro, às mãos as mãos, à voz a recaída. Arrancar o pensamento ao fígado e o fígado ao pensamento. Calar. Sobretudo isso. Calar-me. Escutar o canto sinusoidal, elíptico, dos cactos quando levantam voo para se tornarem homens. Nesses breves segundos, em que os cactos são vermelhos e aveludados, Deus assobia, dizem, velhos ragtimes e eu gosto de ragtimes. Pelo menos tanto quanto gosto de nêsperas, de salivas que não a minha, de bicos-de-lacre, do toque da cortiça. Eu gosto de gostar. E ando esquecido disso.
Miguel Martins
quinta-feira, 19 de maio de 2022
quarta-feira, 11 de maio de 2022
não sei o que fazer com a minha solidão
Punha o coração no trabalho,
que mais podia fazer,
não ia deixá-lo em casa
o dia inteiro sozinho
a comer porcarias e a ver televisão.
Raquel Serejo Martins
(Giulia Rosa)
segunda-feira, 9 de maio de 2022
teoria do caos
Na superficie
da minha pele humana
há restos
de saliva, beijos, carícias, mordidelas
esperma,
chupões,
cortes, feridas, golpes, chagas,
suor, cicatrizes,
esfoladelas, sangue, crostas, pisaduras, lesões,
arranhões,
bofetadas,
varizes, bolhas e queimaduras
Não preciso de perfurações nem de tatuagens,
o meu corpo
é um mapa
Anna Gual
Subscrever:
Mensagens (Atom)





