Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
vou-me embora
Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.
António Lobo Antunes
domingo, 28 de agosto de 2022
esperar
Em todas as casas há um canto para esperar.
O ponteiro dos segundos invade o espaço com a sua música mecânica. É uma tortura a que se dá corda. Há dias em que só há uma maneira de lidar com o tempo: matá-lo!
A cadeira de baloiço, incorpora no corpo o inevitável pulsar do universo e veste a ansiedade com um rosto humano.
Deixa de ser o tempo a passar. É o som do nosso corpo no soalho da casa.
É assim que nos salvamos.
A espera e a saudade vibram nas paredes da sala como um fenómeno natural e nós apenas somos uma pequena peça desta engrenagem maior.
Entre nós e o outro apenas existe um eterno fio que nos laça o passado com o desejo.
É por isso que quando partes nunca te vou ver à janela.
É na cadeira de baloiço que te aguardo
João Monge
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
quarta-feira, 17 de agosto de 2022
retratos e livros
Quem foi que disse que a ausência faz crescer o afecto?
Guarda a tua raiva, é um recurso precioso.
Não te livras do turno da noite, dos pensamentos neuróticos da tua cabeça,
uma espécie de monólogo das aulas de teatro.
Mas quem sabe o que o passado te reserva para esta insónia?
Pode ser whisky, ou preferes algo mais frutado?
Vitor Nogueira
sábado, 6 de agosto de 2022
uma ausência
Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília
Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se
saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante
Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama
O teu nome num chão
nem de saudades
Ana Luísa Amaral
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