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domingo, 28 de agosto de 2022

esperar



 

Em todas as casas há um canto para esperar. 
O ponteiro dos segundos invade o espaço com a sua música mecânica. É uma tortura a que se dá corda. Há dias em que só há uma maneira de lidar com o tempo: matá-lo! 
A cadeira de baloiço, incorpora no corpo o inevitável pulsar do universo e veste a ansiedade com um rosto humano. 
Deixa de ser o tempo a passar. É o som do nosso corpo no soalho da casa. 
É assim que nos salvamos. 
A espera e a saudade vibram nas paredes da sala como um fenómeno natural e nós apenas somos uma pequena peça desta engrenagem maior.
 Entre nós e o outro apenas existe um eterno fio que nos laça o passado com o desejo. 
É por isso que quando partes nunca te vou ver à janela. 
É na cadeira de baloiço que te aguardo 






João Monge

terça-feira, 27 de abril de 2021

cegueira



 

Não vês a sombra do desejo 
Furtiva em cada esquina do teu gesto 
Não vês que tudo aquilo que em ti vejo
 É tudo em que o amor é manifesto 
 Não vês as mariposas no cabelo 
E a rosa que em teus lábios se desnuda 
Não vês que o teu olhar é o modelo 
das vinte madrugadas de Neruda 
Não vês no teu sorriso o fogo-posto
 que lavra nos fados onde morei
 
Se não vês tudo isto no teu rosto 
perdoa, meu amor, porque ceguei. 








 João Monge

domingo, 22 de julho de 2018

fogo posto




Conta-me na pele os meus sinais 
Nas veias quantos segredos
 Conta-me na carne os vendavais
 Que se levantam na ponta dos teus dedos 
Diz em que ser eu me tornei 
Do que sou feito e o que faço
 Conta-me aonde eu regressei 
Quando me contas no teu braço
 Conta-me os cabelos quase cal
 E o líquido cansaço do meu sexo 
Conta-me este amor quase animal
 Para que deus me faça nexo 
Conta-me os meus cinco sentidos
 Que há no teu nome e em mais nenhum
 Conta-me que estando os dois unidos 
Só se pode contar até um.







 João Monge

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nós que não desatam





Quando um dia tu partiste a ti jurei


De olhos postos nesse espelho a que me vi


Que ninguém me há-de ver triste e então pintei


Os meus lábios de vermelho para ti


João Monge ( a lua de Maria Sem )