terça-feira, 21 de novembro de 2023

procuro-te




Procuro-te nos mapas, 
tacteando as fronteiras lentamente, 
à sorte por estações e montanhas,
 decifrando o azul do mar e dos rios, 
lentamente perseguindo
 um nome que te diga e me alimente, 
um resquício de luz feita palavra, 
cidade, aldeia, acidente, talvez terra. 
Virando do avesso a geografia,
 procuro-te, entre os desenhos 
e sinais pintados, lentamente, 
sem trégua, sem remédio,
 lentamente nos atlas, 
sem fé, sem esperança. 







 Josefa Parra
(Foto de Anna O)

sábado, 18 de novembro de 2023

amor . amor



Hoje estava à tua espera
 e não vieste.
 E sei bem o que significa a tua ausência, 
a tua ausência que alvoroçava
 o vazio que deixaste, 
como uma estrela. 
Dizes que não me queres amar. 
Como uma tempestade de verão
 que se anuncia e depois se afasta,
 assim te negaste à minha sede.
 O amor, ao nascer,
 tem destes arrependimentos inesperados. 
Em silêncio
 nos entendemos. 

 Amor, amor, como sempre, 
quisera cobrir-te de flores e de insultos 






 Vincenzo Cardarelli

terça-feira, 14 de novembro de 2023

eu





Uma estação sem ninguém no 
cais,
 um banco na avenida e ninguém
 por perto, 
um armazém abandonado, 
um autocarro vazio, 
um jardim solitário, 
um comboio sem luzes, 
a madrugada, 
um buraco. 
Eu






José Angel Cilleruelo

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

eu que me comovo por tudo e por nada





O que me comove, passado tanto 
tempo, é perceber que fiz a esse disco 
o mesmo que faço e volto a fazer 
aos corpos que julgo amar: 
Parti-los muito devagar, para 
que doam sempre um pouco mais. 






Manuel de Freitas

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

a invenção do amor



 

Faziam amor como se estivessem a inventar
 o que estavam a fazer. 

 Porém o primeiro amor é o primeiro amor. 

 Agora ele gosta de livros difíceis 
e de mulheres fáceis,
 ela pratica tiro com arco e flecha
 e prefere homens casados. 







 Raquel Serejo Martins

terça-feira, 31 de outubro de 2023

o tempo



 

O tempo não traz alívio; mentiram-me todos 
Os que disseram que o tempo acalmaria a minha dor! 
Sinto a sua falta no som da chuva;
 Quero-o quando a maré recua; 
A neve antiga derrete de todas as colinas, 
E as folhas passadas tornam-se fumo em cada caminho; 
Mas este amor amargo permanece sempre
 Amontoado no meu coração, e os meus sentimentos sustentam-no. 
Há cem lugares que temo visitar, 
Tão carregados da sua memória. 
E quando entro aliviada num lugar sossegado 
Que nunca conheceu o seu pé ou iluminou o seu rosto 
Eu digo, "Não existe memória dele aqui!"
 E ali permaneço, fulminada, recordando-me dele







 Edna St. Vincent Millay