segunda-feira, 12 de agosto de 2024

silenciosamente




Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
 a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

 Eu fiquei incendiado 
em compartimentos sem atributos térmicos, 
manuseando de um modo temerário coisas 
como dogmas ou outros objectos teosóficos. 

 Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
 a soletrar silenciosamente o teu regresso. 






 José Rui Teixeira
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

domingo, 4 de agosto de 2024

recados escritos à pressa


 

Vem, antes que os meus olhos só vejam o que tu não vês,
 e as minhas mãos já não toquem o que tu tocaste
e a tua boca se canse de procurar o que de ti ainda possuo, 
 e do teu nome não reste mais que uma metade do meu 





 Al Berto

domingo, 28 de julho de 2024

o amor em visita



 

Em minha defesa, as suas mãos. Em minha defesa, os seus braços. 
Em minha defesa, o modo como sentados ficávamos somente a ouvir a respiração um do outro,
 ele disse, isto chega. O meu corpo era uma casa que eu fechara para o inverno. 
Não devia ter sido assim tão difícil, vazia que ela estava. 
Ainda assim, olhei longamente antes de apagar as luzes. 
 O meu corpo era construção abandonada, andaimes de restauração que se tornaram permanentes.
 O meu corpo inacabado tornou-se o meu corpo acabado. 
Pelo que, em minha defesa, quando ele me tocou as luzes do meu corpo acenderam.
 Em minha defesa, as janelas abriram de par em par.
Em minha defesa primavera

 







Cristin O'Keefe Aptowic

quarta-feira, 24 de julho de 2024

à flor da pele




Uma demora lenta nas palavras
 um calor bom na palma das mãos
 uma maneira de gostar das pessoas e das coisas 
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies 
beber aos golinhos o café a ferver
 ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo 
viver viver roçando as coisas ao de leve 
sem poupar o veludo das mãos e do corpo 
sem regatear o amor à flor da pele
 olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
 e saber de um saber obscuro que o calor 
todo o calor é de mais dentro que vem 






 Rui Caeiro
(Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 16 de julho de 2024

silêncio




Há que fazer
 uma ampliação
 nesta casa
 já não há onde 
guardar 
tanto silêncio 





 Carmen Gloria Berríos
 (Traduzido por Maria Sousa)