domingo, 6 de maio de 2012

Mãe


Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.

José Luís Peixoto

sábado, 5 de maio de 2012

Corpo de abrigo


Estar em algum lugar
sempre
deixar o corpo posto
em algum lugar

porto onde voltar


Eunice Arruda

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Das minhas manhãs


(...)
Vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo. Somos assim dois, eu e tu.
Guarda segredo.

Jorge Roque

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Quero dizer


Queria falar do mar
  gostava de ter dito algo como isto: - foi o mar que me fez começar a pensar no amor, mais do que noutra coisa; quero dizer, num amor por que valha a pena morrer, num amor que consuma uma pessoa.

Yukio Mishima

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Assim como eu sou


Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
  Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
  É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.


Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Era um corpo


Era um mês incerto, havia vento,
eu não teria nascido ainda, ou já teria morrido.
A fronteira entre luz e sombra era muito difusa.
 Então estranhamente o sol pousou naquele corpo.
Corpo que nunca vira despido, que cheirava a maçãs maduras,
com brilhos que desciam às negras sementes da vida.
Estranhamente o sol demorou-se nos seus ombros.
 Um último brilho, ou suspiro, desprendeu-se.
O ar tremia – apesar disso eu era feliz,
Tinha dez ou mil anos, já não sei.


Eugénio de Andrade