sábado, 7 de maio de 2016




Foi no verão que a aprendeste, com dedos afeiçoados aos instrumentos da paciência, a entrar na noite. 
 Medias então os dias com rigor de lábios, declinando o mel e a sua sabedoria. 
 Sempre partilhaste a casa, meu perdulário, na confluência das águas e da sede. 
 E enquanto aguardavas a violência do silêncio, passavam as aves






 Eugénio de Andrade
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não deites fora as cartas de amor




Elas não te abandonarão. 
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
 - essa flecha de sombra - 
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos 
ocultar-se-ão em ti, no fundo do espelho. 
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros. 
Decairás ainda mais 
e perderás até a poesia. 
O ruído frio da cidade nos vidros
 acabará por ser a tua única música, 
e as cartas de amor que tiveres guardado
 serão a tua última literatura. 



( gosto tanto deste poema)






 Joan Margarit

quarta-feira, 4 de maio de 2016




Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, 
sem nome, sem olhar o que me rodeia, 
sem corpo que me transporte, 
sem pensamentos.

 ... 
Estou gasto. 
Dei-me sempre mais do que podia.






 Al Berto
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 1 de maio de 2016

dos meus filhos




Agora que o indeciso mês assentou 
em dois ou três episódios - uma telha
 que se fez manancial onírico de dois gatos, 
por exemplo - posso recuperar 
o fio de música que me escapou todo o ano
 e despenhar-me sem pejo
 na intimidade com os gritos mais sinceros. 

 O que dissolve nas sombras desta casa
 é o vil trono da minha juventude






Vasco Gato
 "Primeiro Direito"