Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
sexta-feira, 15 de junho de 2018
terça-feira, 12 de junho de 2018
acender a chama recomeçar a luz
Sabes como me fizeste noite?
e como me obrigas a reaprender devagar
o comprimento dos dias ?
Ana Paula Inácio
segunda-feira, 11 de junho de 2018
ao teu amor não lhe perdoes nada
Solitário e furtivo, o homem do ramo
anda por locais nocturnos à procura de casais.
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
numa noite que não tem cheiro a noite.
E perdi-me pelas traseiras da vida.
Uma mulher na sombra que não és tu
roubou-te os olhos e chora. A cidade
é uma exacta e monstruosa cópia.
Como se o Cúpido já estivesse velho,
passa cuspindo o vendedor de rosas.
Enquanto se afasta penso: ao teu amor
não lhe perdoes nada. Nem o seu final.
Joan Margarit
(Foto de Anna O)
sábado, 9 de junho de 2018
sexta-feira, 8 de junho de 2018
resgate
de todas as vezes
decapitada
tornei a colocá-la
sobre os ombros
à cabeça
que hoje
deposito ao contrário
para que não te veja
quando olhar para trás
Ana Paula Inácio
quarta-feira, 6 de junho de 2018
a ver se deixa de doer
Demorou dois meses a livrar-se dos livros.
Dezassete caixotes de cartão,
um em cada manhã, a caminho do trabalho.
Abandonava-os no estacionamento.
Primeiro os livros, depois as estantes,
prateleira a prateleira, com a decepção de quem
renuncia a uma fé.
Deixara de ler. Agora, bastavam-lhe
alguns minutos no corredor do supermercado.
Folheava ao acaso, reprimindo a repulsa.
Tinha deixado de escrever.
Recusava-se a acrescentar uma palavra que fosse
à pilha de papel impresso
que lhe esmagava a carne. Para papel,
bastava-lhe o do escritório, o peso e a espessura
do arquivo morto da burocracia.
Relatório, inventários, estatísticas.
Com o tempo talvez dos números
emergisse uma imagem de mundo.
Alguma coisa em que acreditar.
Mais tarde, quando lhe ocorria um título,
dirigia-se à estante, uma prateleira no armário
da televisão,
e não encontrava lá nada.
Voltava para o quarto, mas continuava a senti-los,
feridos como é possível
sentir a dor de um membro há muito amputado.
Madalena de Castro Campos
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