Herberto Helder
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
eram 3 da tarde
Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia,
talvez de um dia em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!
Manuel António Pina
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
não sei
Como pode
a mais frágil borboleta
transportar em si
montanhas
cidades rios oceanos
a bandeira caída no azeite
o poente cigano que pede boleia
a nuvem em tamanho natural
a metafísica do sangue
o véu em chamas
a casa feita de água
o vento batendo portas e janelas
ao longo deste corredor feito de palavras
e como se isso fosse pouco
eu
e a tua ausência
Artur do Cruzeiro Seixas
(Foto de Cristina Coral)
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
incêndios
Se ao menos o teu coração
também se pudesse
circunscrever
José Carlos Barros
(Foto de Katia Chausheva)
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
nada tenho
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho
Abbas Kiarostami
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