Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
sexta-feira, 19 de março de 2021
quarta-feira, 17 de março de 2021
o labirinto
da flor
Para sobreviver à noite decidimos perder a memória.
Cobríamo-nos com musgo
seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo.
Mas, antes que a
memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor,
registámos inquietantes vozes,
caminhámos invisíveis na repetição enigmática
das máscaras, dos rostos, dos
gestos desfazendo-se em cinza.
Escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
Era quase manhã no fim deste cansaço.
Al Berto
(Foto de Natalia Drepina)
segunda-feira, 15 de março de 2021
sobre a cegueira
Cerré mi puerta al mundo;
se me perdió la carne por el sueño
Me quedé, interno, mágico, invisible,
desnudo como un ciego.
Lleno hasta el mismo borde de los ojos,
me iluminé por dentro.
Trémulo, transparente,
me quedé sobre el viento,
igual que un vaso limpio
de agua pura,
como un ángel de vidrio
en un espejo.
Emilio Prados
quarta-feira, 10 de março de 2021
morar-te
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
Mia Couto
(Foto de Ezgi Polat)
quinta-feira, 4 de março de 2021
desamparo
ao meio da noite às vezes desamparadamente
acordas, não acordas:
tão distante do mundo que o não tocas,
tão distante do socorro do mundo que não existe ninguém em
quem toques
Herberto Helder
(Foto de René Groebli)
segunda-feira, 1 de março de 2021
casa
Queria ter a posição dos claustros
A posição do monge antigo que os varre
A posição do moribundo que pergunta as horas
A posição das árvores quando as crianças sobem
A posição dos ramos quando os ninhos nascem
A posição de alguém que já não mora. Queria
Como se tivesse
A posição da casa e alguém me visitasse
Daniel Faria
(Foto de Andrei Tarkovsky)
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