terça-feira, 6 de abril de 2021

o amor em visita



 

Eu deixei um bilhete sobre a mesa para quando você acordar. 
Eu tive que sair muito cedo e não sabia exatamente que 
palavras deixar. Eu queria te dizer várias coisas sobre a noite, 
coisas que começariam com palavras claras e doces, mas
 ligeiramente acidas, e depois um pequeno segredo e uma
 declaração firme e discreta e por fim uma frase que seria fria
 por fora mas quente por dentro como uma sobremesa francesa. 
Mas foi tão difícil, o sol batia de leve sobre a mesa, você
 dormia tão próximo e eu ainda não tinha calçado os sapatos,
 o que certamente interferiu um pouco na minha caligrafia. 
Seu apartamento de manhã ainda decorado com os restos 
da noite. Eu não sabia o que dizer, e se a única caneta que
 encontrei era vermelha você pode supor meu sobressalto e
 então eu apenas escrevi
 É tão tarde, mas
 eu estou pronta
 se você estiver
 e desenhei sem cuidado no canto esquerdo do papel
 um pequeno veleiro 









 Ana Martins Marques

sexta-feira, 2 de abril de 2021

sexta feira da paixão



 

Se eu um dia voltar hei - de morar onde ninguém saiba 
hei - de ter um limoeiro carregado hei - de sair ao lusco - fusco rente aos muros 
só para sondar os mistérios que há no fulgor instável das magnólias 









 Ivone Mendes da Silva

segunda-feira, 29 de março de 2021

desorientação



 Entrar na tua vida tal qual um furacão, 
destrambelhar os móveis, a família, o dinheiro,
entrar-te na cabeça e, sem pedir perdão
 partir e regressar, ao ritmo de um romeiro. 

E ter a cama à espera, desejo que não esquece, 
e ter a tua boca, respiração de penas,
 apenas uma lágrima- o silêncio engrandece
 nossa constelação de estrelas tão pequenas. 

Amar-te ainda e sempre, e sempre mais, e tudo
 se assemelhar ao nome que te dou quando a sós, 
e saber que o que digo, quando me digo, mudo,
 nasce da fonte clara, me vem da tua voz 






 Miguel Martins

segunda-feira, 22 de março de 2021

geografia íntima


o que me dói tem um nome que não obedece a mapas:
a memória é um tempo desavindo.
 



Rui Nunes

domingo, 21 de março de 2021

a poesia



 

A poesia de uma mãe que grita da varanda
 chamando os filhos para a mesa. 
A poesia de um rádio que toca do outro lado
 de uma janela entreaberta.
 A poesia de um mendigo curvado à frente de um chapéu
 no passeio, à espera de esmola. 
A poesia de um charco quase seco entre as pedras. 
A poesia de uma mulher que se levanta da cama
 e procura às apalpadelas o sutiã na penumbra. 
A poesia de um cão que se espreguiça
 bocejando numa esteira.
A poesia de um televisor silenciado 
enquanto se ouve música e os corpos se afastam. 
A poesia de uma rua a meio da tarde 
em cujo extremo há uma fresta de luz que se projecta
 sobre o mar, atravessada pelos tombos de um bêbado. 
A poesia de uma voz ao telefone. 
A poesia de um autocarro que sobe a avenida 
cheio de gente ensimesmada. 
A poesia de um velho e desdentado vagabundo
 emborcando um pacote de vinho na escadaria de uma igreja.
 A poesia de uma mancha de óleo na calçada. 
A poesia de um gordo que se agacha 
com um cigarro entre os lábios
 para atar os sapatos ao fundo do balcão. 
A poesia de uma velha que retoca a maquilhagem
 ao espelho. 
A poesia de umas mãos que quase não são as minhas
 sondando (seduzindo?) o teclado… 

 Toda esta poesia que nunca cabe num poema 






 Roger Wolfe