quinta-feira, 29 de junho de 2017

Por vezes não sabemos o que fazer




por vezes não sabemos o que fazer

 — hoje apenas resta esta frase
 a sinalizar em ferida uma falha 
— sem esperança dela irradiar
 cornucópia luminosa braseiro
 ficamos imobilizados no mundo 
sem contorno ou profundidade
 sem mão ou palavra para erguer
 alguma coisa se afasta de nós
 irremediavelmente. 







 Carlos Alberto Machado

quarta-feira, 28 de junho de 2017

prefácio




Ao nível do mar
 como o nome da flor do vinho
 murmurado entre relógios de carvão 
 escrito devagar na cal do silêncio
 como o lençol de púrpura
 no peito dos amantes 
 de costas para a morte 
 ao nível do mar 
 como um cardume de palavras cintilantes
 no horizonte de cinza e de pavor
 como um cavalo branco toda a noite
 de estrela para estrela
 ao nível do mar
 como a flor que se abre na boca dos suicidas
 um homem 
 ferido de morte 
 vai falar 






 António José Forte

segunda-feira, 26 de junho de 2017

por ter ficado




nada mudou jamais - e o meu passado é 
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
 de me deixares é o que o espelho me devolve no
 presente 







 Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 23 de junho de 2017




somos todos uma vez na vida o peso das nossas mãos 






Rui Nunes

quarta-feira, 21 de junho de 2017

esse nome




Encontrei-o no bolso do primeiro 
casaco deste verão. Frio. Toquei-lhe
 o corpo das letras devagar como se
 fosse mão que me aguardasse. Frio. 

 Trouxe-o aos olhos com desejos de
 lembrar-me que tarde e de que verão; 
li com os lábios esse nome que talvez 

 me livrasse da doença, tentei escutá-lo
 numa voz que me estendesse os dedos. 
Frio, frio. 







 Maria do Rosário Pedreira