segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aguardo-te


se te cansares de mim, não me peças que chore.
deixa-me secar lentamente como
pelo tempo, mais me custará, porque mais
lento verterei a alma para a morte.
no entanto dá-me esperança de que não partirás,
aguardo-te muito quieto, muito quieto
para não atrapalhar os teus planos como quem
não quer assustar a caça. mas sou a presa,
eu sei que sou a presa. e tu podes vir reclamar-me
o couro com toda a violência, já não me importo









Valter Hugo Mãe

domingo, 5 de setembro de 2010

Dias assim



Mas há tanta solidão
que as palavras se suicidam.






Alejandra Pizarnik

sábado, 4 de setembro de 2010

Fogo Posto


Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.
Era fim de tarde era depressa era comprido Verteu palavras tenras até já não ter voz Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo
E ela ardeu




Manuel Cintra

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Por aí


o meu coração respirou todo o ar e segue caminho por aí pairando,
se o meu coração não quiser, não vai descer ao peito nunca mais,
nem para amar, nem para esquecer que um dia decidiu calar-se e fugir de tudo













Valter Hugo Mãe

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Silêncio



Há perguntas a que só nós mesmos podemos responder
E não existem respostas certas ou erradas
Apenas respostas
Sabemos que assim é quando ficamos calados
As perguntas à espera de respostas
E nós à espera de palavras que digam o que não conseguimos dizer




Luís Ene

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Do vazio


O passado trazemo-lo na pele e não nos bolsos do casaco por isso entende
não adianta pendurá-lo deixá-lo para trás.
perdes tempo quando foges.
perdes os passos que me cabiam nos braços para alcançares nada.
pelo meio desarrumaste-me os dedos e tudo o que escrevo sai-me trocado.
ainda há pouco desenhei uma saudade onde se escreve uma cadeira vazia.
Pedro Jordão