domingo, 11 de setembro de 2011

Todas as palavras


As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração, e não reconheci,
ou desistiram e partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.


Manuel António Pina

sábado, 10 de setembro de 2011

Roteiro para um paraíso privado

Deitar-se alguma vez nos sulcos do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico o cheiro das nossas mantas.
Não lavar os dentes e sobretudo esquecer de baixar as persianas.
Coleccionar pontas sucessivas de cigarros, jornais de muitos ontens e rimas de livros lidos só três paginas.
Não endireitar a curva daquele candeeiro, deixar as gavetas abertas com colírios, comprimidos e roupas à vista.
Amontoar em cima da cómoda brincos ímpares, perfumes sem tampa,
pequenos espelhos quebrados, alfinetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos e a roupa de todas as horas


Inês Lourenço

domingo, 4 de setembro de 2011

Side of the road




Tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não
têm olhos


José Tolentino Mendonça

sábado, 3 de setembro de 2011

A outra






Quem é essa agora?
Que dentro de mim
Me assusta e me atrai
Sorrateira ela sou eu
Ou é alguma sombra
Que me segue como bicho
Rastejando nos calcanhares
da minha alma
Lá está, lá está
Sabe tudo, faz tudo
Eu sou apenas ferramenta
Garganta pela qual
Ela chama, chama, chama...


Lya Luft

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Procura-se


Musa procura-se. Abstenham-se fracas
ressentidas travestis e invejosas.
Salário baixo
noites de amor intenso
e livros como filhos.



Cristina Peri Rossi

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dias Assim




Doce e cruel é setembro.

Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista