Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Boletim meteorológico
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Não entendo

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Letters to strangers

Quando já nem do amor eu souber escrever. Quando as palavras forem mais densas que a dimensão dos sentimentos, quando este peso duro alcochoar no musgo o cessar da minha fome. Quando for demasiado tarde no exílio dos meus sentires, quando à caneta lhe faltar a tinta do meu corpo em prosa, e da prosa a frase se fizer desfeita no meu peito em branco. Quando, e quanto amor escalpado, vazio como todas as outras peles que desconsolo no meu abandono. Quando já nem do amor eu souber ler, esquecida na lacuna dos teus olvidos. Quando os lugares que por nós imaginei sucumbirem no vendaval das tuas emoções. Deixa ficar a louça gasta dos anos transpostos, deixa ficar a cama desfiada em tapeçaria bordeaux. Deixa ficar um simples copo de água encadeado no reflexo de um caudal maior. Quando já nem do amor me lembrar que me sucedeste, e de dor atordoada sem dedos que me recortem as palavras, eu fingir esquecer que um dia também eu te aconteci - foi porque morri na reunúncia dos teus sentidos.
Alice Turvo
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Tem soprado vento

Ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros. evito pensar em ti.
cavo, planto, enxerto, podo, varo, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado vento glacial, fortíssimo, o que me desiquilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo, como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.
Al Berto
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