terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

hei-de dizer que sim



Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi verdade - que não amei ninguém depois de ti nem o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio que não fosse a memória de um instante junto do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste por não suportar as palavras maiores longe da tua boca; e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa, acreditando que, se não me alimentasse, acabaria por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura. Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti, bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente do que tinham e os vi partir desesperados a meio da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal, também eles não existiam para além de ti; e que no dia seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida. Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono. E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas, pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.







Maria do Rosário Pedreira

domingo, 23 de janeiro de 2022

a soma dos dias



 

Bato à porta do teu quarto mesmo quando sei que não estás. 
Descobri agora quanto custa aos mendigos,
 não digo a fome, mas não haver ninguém. 






Daniel Faria

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

elis






sobre o meu corpo


Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado.
A verdade é que nunca soube o nome dessa flor
que nalguns olhos abre logo de madrugada.
 Agora para saber é tarde.
O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
 um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa

 É sobre o meu corpo que chove


  



 Eugénio de Andrade