domingo, 27 de abril de 2014

Os olhos rasos de água e solidão


estava nua, só um colar lhe dava 
horizontes de incêndio sobre o peito, 
a transmutar, num halo insatisfeito,
 a rosa de rubis em quente lava. 
 estava nua e branca num estreito 
lençol que o fim do sono desdobrava 
e a noite era mais livre e a lua escrava
 e o mais breve pretérito imperfeito. 
 só o tempo verbal lhe fugiria, 
no alongar dos gestos e requebros, 
junto do espelho quando as aves vão.
 toda a nudez, toda a melancolia, 
a dor do mundo, a deslembrança, a febre,
 os olhos rasos de água e solidão. 




 Vasco Graça Moura

sábado, 26 de abril de 2014

Por desejo



despem-se diante dos olhos dois corpos de luz 
mas a inclinação da luz é rasa 
é a fricção dos corpos que ilumina a biblioteca 
dos livros perde-se a cor da antiguidade
 dos sorrisos inverte-se a obliquidade das palavras
 e em silêncio inveja-se a luz produzida
 as página e os corpos tocam-se de perto
 por desejo, imagino eu que leio só. 




 André Tomé