Clarice Lispector
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
segunda-feira, 15 de abril de 2019
sexta-feira, 12 de abril de 2019
a queda
Je suis tombée
amoreuse, foi o seu
primeiro encontro
com o chão.
Dessa vez partiu
em cacos o coração.
Os ossos só mais tarde,
um por um,
contra a terra.
C'est fou la vie,
essa derrocada
a que apenas resistem
memória e pássaro,
em voo picado.
Renata Correia Botelho
terça-feira, 9 de abril de 2019
talvez
Gastar por antecipação o tempo da morte,
consumir o silêncio do futuro
como uma flor enterrada,
viver a crédito
da eternidade imparcial que nos espera,
pôr entre as manhãs e as tardes
algo mais digno de fé do que o meio-dia
e aprender a pôr termo às palavras,
ainda que apareçam encostadas.
Talvez assim a morte dure menos,
a vida use outras portas
e não se cansem tanto
os olhos que nos buscam.
Roberto Juarroz
terça-feira, 2 de abril de 2019
uma história
Dizes adeus ao chegar
bom dia ao ir embora
e no breve e longo intervalo
digamos que a meio da cama
enregelada e só — a história
que ninguém há-de contar
Rui Caeiro
sexta-feira, 29 de março de 2019
fora de prazo
A infelicidade engorda mais
do que vinte tabletes
de chocolate Regina.
Mesmo partida aos quadrados
e embrulhada em prata
para disfarçar,
tem mais calorias. É um veneno,
a infelicidade. Matou uns quantos
pelo caminho e mesmo assim
tem prosseguido ao longo dos séculos
engolindo sulcos de tempo e
lamelas de comprimidos.
Infelicidade, por seres minha,
tenho-te algum respeito.
Gostava de mandar-te para. Mas
é tão longe que, temo,
sentir-me-ia sem ti só
e, pior, infeliz.
Sigo.
De braço dado contigo.
Primeiro, pelo adro fora.
Depois, pelo jardim fora.
Qual paraíso.
Não, isso não chega: sigo contigo
pelo universo; cubro
chineses, paquistaneses, neozelandeses
com o teu manto diáfano
de choro.
E é sempre contigo,
minha puta, que partilho
a bandeja das recordações;
é sempre contigo, minha puta fiel,
que digo, num sorriso minúsculo e muito tímido:
hoje o lanche é chocolates.
Come chocolates, pequena.
Porque, sabes?,
querer ser feliz não é pecado. Mas
infelizmente já passou o prazo.
Inês Fonseca Santos
quarta-feira, 27 de março de 2019
desassossego
Tu vens todos os dias à noitinha
e despes-te com tanta lentidão
com tanta lentidão que se adivinha
a forma do teu próprio coração
E quando vais é já noite fechada
não sei se vou ficar se vou sair
não posso ter a alma sossegada
sem saber se amanhã tornas a vir
David Mourão-Ferreira
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