terça-feira, 18 de outubro de 2016




Apaixonar-se sozinha é apaixonar-se pelo silêncio. 
 Um silêncio com fumos e espelhos.
 O amor, se é alguma coisa, é dos que se olham. 







Alejandra Pizarnik

domingo, 16 de outubro de 2016

um lugar sem história na história da minha vida




Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história 
na história da minha vida, um lugar de postais antigos, 
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
 de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. 
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
 cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar, 
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe 
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
 por fora e por dentro, criança que não se conhece
 nem quer conhecer e que procura apenas o início
 e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente
 para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar 
 os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
 pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
 do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos, 
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe 
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
 e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 






Miguel Martins (Desvão)
(Foto de Natalia Drepina)

sábado, 15 de outubro de 2016




Noite após noite, a noite seguinte: ninguém







 Rui Nunes
(Foto de Nishe)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016




não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo. 

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível. 

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos. 






 gil t. sousa
(Foto Veneza Abril 2011)

domingo, 9 de outubro de 2016




O dia vai entrando no quarto calcinado. Foi inútil a
 sutura negra. 

Resta um prazer: ardemos
 em palavras incompreensíveis. 






 António Gamoneda