quinta-feira, 24 de abril de 2025

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025



 

Quando me despedi do teu corpo senti saudades do meu 






Maria Teresa Horta

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

desencontro




Ele não apareceu.
 Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
 um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele. 
Talvez se tenha esquecido do relógio, 
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo. 
Talvez o carro não pegasse,
 ou tenha ficado avariado a meio do caminho. 
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
 dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral 
ou que a mãe dele tinha morrido. 
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido. 
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
 tenha sido despedido e esteja a esconder 
a cabeça debaixo de uma almofada. 
Talvez a ponte estivesse fechada e
 a seguinte também. 
Talvez o semáforo permanecesse vermelho. 
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
 ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera 
do porta-moedas.
 Talvez tenha perdido os óculos,
 não conseguisse deixar de ler, 
houvesse um programa que ele queria acabar de ver, 
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta, 
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e 
o cão dele de repente começasse a vomitar. 
Talvez não houvesse um telefone por perto, 
não encontrasse o restaurante 
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
 Talvez – a última possibilidade, 
incompreensível e inesperada – 
ele tenha deixado de me amar.





 Hagar Peeters
 (Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

o amor é para os parvos




Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu gosto-te, tu gostas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.







 

Manuel Jorge Marmelo

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

o único poema



 

Não sei por onde andas agora 
lembro-te cada vez mais longe
 em dias assim, de chuva, de noite
 fechado nisto que não mudou 
Vejo-te às vezes por essas ruas
 se por acaso chega o Outono
 ou dores antigas e maiores 
vejo-te às vezes por essas ruas
 E digo adeus, sincero, míope
 as sílabas todas do teu nome
 o único poema que sei de cor
 e grito cada vez mais longe 







Nuno Camarneiro

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

terça-feira, 15 de outubro de 2024

diários





Toda la noche me abandonas lentamente como el agua cae
 lentamente. Toda la noche escribo para buscar a quien me busca. 

 Palabra por palabra yo escribo la noche 







 Alejandra Pizarnik

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

era




Era um pássaro alto como um mapa
 e que devorava o azul 
 como nós devoramos o nosso amor. 

Era a sombra de uma mão sozinha
 num espaço impossivelmente vasto 
 perdido na sua própria extensão. 

Era a chegada de uma muito longa viagem 
 diante de uma porta de sal
 dentro de um pequeno diamante. 

Era um arranha-céus
 regressado do fundo do mar. 

Era um mar em forma de serpente 
 dentro da sombra de um lírio. 

Era a areia e o vento 
 como escravos
 atados por dentro ao azul do luar. 







 Artur do Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

o amor



 

o amor é o telefone a tocar, 
a mesma voz 
ou outra voz 
 mas nunca a voz
 certa






 Charles Bukowski

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

o vento




Hay que salvar al viento 
los pájaros queman el viento
 en los cabellos de la mujer solitaria 
que regresa de la naturaleza
 y teje tormentos 
Hay que salvar al viento





 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Laura Makabresku)




terça-feira, 3 de setembro de 2024

cinema




 

Contaram-me que já tens outra 
e eu apiedei-me de ti.
 Nunca houve na história do cinema
 um remake de jeito. 






Dulce Maria Cardoso

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

silenciosamente




Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
 a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

 Eu fiquei incendiado 
em compartimentos sem atributos térmicos, 
manuseando de um modo temerário coisas 
como dogmas ou outros objectos teosóficos. 

 Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
 a soletrar silenciosamente o teu regresso. 






 José Rui Teixeira
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

domingo, 4 de agosto de 2024

recados escritos à pressa


 

Vem, antes que os meus olhos só vejam o que tu não vês,
 e as minhas mãos já não toquem o que tu tocaste
e a tua boca se canse de procurar o que de ti ainda possuo, 
 e do teu nome não reste mais que uma metade do meu 





 Al Berto

domingo, 28 de julho de 2024

o amor em visita



 

Em minha defesa, as suas mãos. Em minha defesa, os seus braços. 
Em minha defesa, o modo como sentados ficávamos somente a ouvir a respiração um do outro,
 ele disse, isto chega. O meu corpo era uma casa que eu fechara para o inverno. 
Não devia ter sido assim tão difícil, vazia que ela estava. 
Ainda assim, olhei longamente antes de apagar as luzes. 
 O meu corpo era construção abandonada, andaimes de restauração que se tornaram permanentes.
 O meu corpo inacabado tornou-se o meu corpo acabado. 
Pelo que, em minha defesa, quando ele me tocou as luzes do meu corpo acenderam.
 Em minha defesa, as janelas abriram de par em par.
Em minha defesa primavera

 







Cristin O'Keefe Aptowic

quarta-feira, 24 de julho de 2024

à flor da pele




Uma demora lenta nas palavras
 um calor bom na palma das mãos
 uma maneira de gostar das pessoas e das coisas 
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies 
beber aos golinhos o café a ferver
 ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo 
viver viver roçando as coisas ao de leve 
sem poupar o veludo das mãos e do corpo 
sem regatear o amor à flor da pele
 olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
 e saber de um saber obscuro que o calor 
todo o calor é de mais dentro que vem 






 Rui Caeiro
(Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 16 de julho de 2024

silêncio




Há que fazer
 uma ampliação
 nesta casa
 já não há onde 
guardar 
tanto silêncio 





 Carmen Gloria Berríos
 (Traduzido por Maria Sousa)

terça-feira, 9 de julho de 2024

a luz



 

A luz do ar; 
a luz da brisa; 
a luz da ausência de companhia humana;
 a luz da hesitação; 
a luz da vontade de dormir; 
a luz de ter uma língua em que uma parte escurece; 
a luz de ir contra o risco do tempo; 
a luz de terminar a frase 







Maria Gabriela Llansol,

quarta-feira, 26 de junho de 2024

dorme cá hoje




 Tenho uma almofada a mais
 feita de memory foam das televendas
 onde a curvatura do teu crânio
 já foi adivinhada 

 Praticamos o modo bed and breakfast,
 aceito dinheiro ou cartões
 mas não te dou crédito, 
em troca levo-te o cafe à cama 

 Não estranhes este meu hábito 
de deixar a luz acesa
 para fingir que está alguém em casa 
ou o outro de deixar 
pernas e portas entreabertas
 esperando que o último a sair
 se lembre de as fechar 

 Não espreites o quartinho dos arrumos,
onde guardo a esfregona, 
os homens que corroem 
e o óleo de cedro para os móveis

 O meu chão vai ranger 
quando o privares do teu peso; 
por hoje, torna-te o homem-a-dias 
que vem arejar este quarto alugado 

 Descansa se ouvires sons de ossos
 a estalar durante a noite;
 são só os meus esqueletos
 a dançar vitoriosos no armário 






 Ana Bessa Carvalho

segunda-feira, 10 de junho de 2024

sem pecado





Por uma vez a velocidade foi um lugar firme
 entre as paredes. Tirei dela uma mão-cheia, 
duas, três. Não sei o que disseste_ o teu corpo 
era uma espécie de obstáculo à precisão, 
o erro reincidente na rotação de um compasso 

As árvores tinham pressa de chegar a qualquer lado, 
mas tu eras de uma seda mais veloz
 e corrias nos meus dedos sem remorso nem pecado 






 Rui Pires Cabral