segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017




Uma mão quente. 
Uma casa quente. 
Um pullover quente
 para cobrir meus pensamentos gelados. 
Um corpo quente 
para cobrir o meu corpo. 
Uma alma quente
 para cobrir a minha alma. 
Uma vida quente
 para cobrir a minha vida gelada. 








 Sonia Åkesson

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017




20 anos depois, enquanto me falas
 de pequenas cidades - pergunto-me
 se uma recordação é algo que conservamos
 ou algo que já perdemos 







 Benjamín Prado
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017




Está vazio o teu peito  No lugar
 do coração talvez um ataúde
 ou nem isso uma sombra
 igual a essa noite onde procuras
 o mar o imenso mar e só encontras
 sede 







 Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
 Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor. 
Porque o amor resultou inútil.
 E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
 E o coração está seco. 









 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Natalia Drepina)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017




do curso breve de literatura 
 que fiz numa esplanada 
enquanto os músicos de rua 
 tocavam um flamengo desafinado

 aprendi: 
 que a poesia é a comparação 
 de todas as coisas do mundo
 a todas as outras coisas do mundo. 

 espero que não leves a mal
 que pense mansamente em ti
 quando vejo um escaravelho alimentando-se 
de uma palmeira a morrer de pé. 

 entende que comparar-te a um ulisses
 seria uma hipérbole e que sempre recusei o augúrio
 anunciado pela varanda do teu quarto
 e da sua vista para o maior cemitério da cidade.

 mas comparava-te então à palmeira, 
embora te julge por vezes escaravelho, 
 quando o teu exoesqueleto estala à pressão 
das minhas mãos e da vida em comum. 

 foi contigo e com as palmeiras 
 que aprendi a tentar fingir
 a verticalidade dos vivos.
 não me leves então a mal 

 que pense em ti com o mesmo carinho
 com que penso nas palmeiras mortas, 
ou nas crisálidas que fiz explodir entre os dedos 
quando me deixaste sozinha

 a tomar conta dos teus medos ainda por abrir. 






 Ana Bessa Carvalho

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017




Agora que tens uma casa cheia de gatos,
 um armário cheio de vestidos 
outro cheio de sapatos,
 uma caixa cheia de jóias brilhantes e coloridas
 e outra cheia de comprimidos também brilhantes e coloridos. 

 Depois de uma vida cheia de cupidos,
 pergunto se tiveste um vida cheia, 
a quantos chamaste meu amor, 
querendo dizer “meu”, dizer “amor”, 
se tens o coração cheio ou vazio em dor. 








Raquel Serejo Martins

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

geografia íntima




tantas vezes recordo aquele
 corpo que não sabia do prazer que me dava, 
 tantas vezes acordo e o seu nome quase
 me escapa dos lábios, reconheço as feridas,
 os golpes todos, se lembro é porque quero 
 esquecer 








 Helder Moura Pereira



Soñé que me miraba y que me sonreía como quien oye dulces mentiras. 
 Era tan cierto que tenía que ser mentira. 






 Alejandra Pizarnik

domingo, 12 de fevereiro de 2017




Parto de um rosto ou de um corpo que vou destruindo. Sou
 todos os rostos e todos os corpos. Lugar de desarmonia

 - Sou um intervalo. Nunca preenchido 







 Rui Nunes

sábado, 11 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

hoje





Alguém que andava a ver se te esquecia 
 e a cuja memória, por isso mesmo, 
 regressavas como a melodia de uma canção da moda 
 que todos trauteiam sem querer, 
 ou como a frase de um anúncio ou um lema; 
 alguém assim, agora, 
 provavelmente
 (seguramente) sem o saber, 
 começou, finalmente, a esquecer-te. 
 Hoje és menos. 







 Roberto Fernández Retamar
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017




Alguma vez 
alguma vez talvez 
me irei sem ficar
 me irei como quem vai 






 Alejandra Pizarnik

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

eu o resto




Dividendo divisor quociente e resto
 eu o resto
 o que de nós resta 
 a casa vazia desarrumada e suja de fim de festa
 eu como um animal doméstico perdido na floresta
 o meu respirar cheio de arestas
 e o mundo uma besta
 a respirar baixinho
 um barulho de vento e folhas
 mesmo se janelas e portas fechadas 
 de olhos postos em mim porque sempre com fome 
 uma fome do tamanho do mundo 
 e já se pôs o sol já começa noite. 







 Raquel Serejo Martins
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017





É o amor, eu sei, eu sei, 
a fome e a alma de todas as coisas, 
mas há dias, eu juro, em que
 luto com todas as minhas forças, 
para que não seja a raiva,
 a razão de todos os actos importantes.






 Pedro Santo Tirso
  (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017




Não me movo, 
quase não respiro, 
tento não existir, 
estou sem estar, 
sou paisagem, 
sou o nada dentro de tudo, 
sou um peixe a boiar no escuro, 
sou um pedaço de céu, 
uma nuvem, uma árvore, 
um agapanto em pranto,
 uma planta a secar num vaso, 
carente de água e de gestos de ternura. 







 Raquel Serejo Martins
(Foto de Katia Chausheva)