quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cadeira vazia


Desejo uma fotografia como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria, derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia...
Não..

Neste espaço que ainda resta, ponha uma cadeira vazia.



Cecília Meireles

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Agosto


Não tardará a chegar ao fim
este Agosto que te viu passar
com a luz a teus pés.
Somos eternos, dizias.
Eu pensava antes na danação da alma
ao faltar-lhe o alimento que lhe trazias.
Agora a cidade
vive do peso incomensuravelmente morto
dos dias sem a tua presença.
Deixo a mão correr sobre o papel
tentanto captar o eco de uma palavra, um sinal,
e quem em qualquer parte cintila,
e confia ao vento o segredo da nossa tão precária eternidade.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

O meu amor




...
Tem trinta mil cavalos
A galopar no peito quando a seu lado eu me deito.

Jorge Palma

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Diz-me


Diz-me por favor onde não estás em qual lugar posso não te ver,

onde posso dormir sem te lembrar e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar sem encontrar as tuas pegadas,

onde posso correr sem que te veja e onde descansar com a minha tristeza

Diz-me por favor qual é o céu que não tem o calor do teu olhar

e qual é o sol que tem luz apenas e não a sensação de que me chamas

Diz-me por favor qual é o lugar em que não deixaste a tua presença.

Diz-me por favor onde no meu travesseiro não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite em que não virás velar meus sonhos.

Que não posso viver porque te espero e não posso morrer porque te amo


Jorge Luis Borges

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A mão


No verão inocente dos joelhos
à entrada da noite
como se a luz doesse
entre o desejo
e o espasmo lentíssimo relâmpago
a mão.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tantas coisas


E depois uma rapariga precisa de algumas coisas, poucas, só que cada uma dessas coisas, por sua vez, precisa de outras coisas e depois já são tantas que para fazer uma mala são precisas duas horas e um quarto.


Pedro Paixão

Eu venho de uma longa saudade





Clarice Lispector

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Memória futura


Guardo numa gaveta de velhos objectos
as tuas palavras, até que o bolor
do futuro as apague -
para que só eu
saiba o que nunca me disseste.

Nuno Júdice

domingo, 14 de agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

A paixão




Levanto a custo os olhos da página; ardem; ardem cegos de tanta neve.

Faz dó esta paixão pelo silêncio, pelo sussurro do silêncio,

pelo ardor do silêncio que só os dedos adivinham.

Cegos, também.

Eugénio de Andrade



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Estado de árvore




Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

Manoel de Barros

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Só quero um sítio onde pousar a cabeça




Manuel Antonio Pina

A memória da pele


Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que
te pertencem e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto. Há ainda a memória da pele, o amarelo dos
olhos e algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te com a poeira da
casa.



João Miguel Fernandes Jorge

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Do silêncio




Ás vezes o dia inteiro resume-se a uma palavra;
mas hoje se não conseguir escrever,
saio para a rua e mato alguém

Al Berto

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Diálogos íntimos


Envio-te
mensagens telepáticas que repito sete vezes seguidas.
Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto tempo,
como: Amo-te muito. Meu amor, que saudades, vem depressa.
E outras ainda mais gastas que digo todos os dias,
como : Foda-se esta merda...



Inês Lourenço

Sem palavras




Em que língua se diz, em que nação, em que outra humanidade se aprendeu a palavra que ordene a confusão que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados cantos de ave pousada em altos ramos dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Abraço-me


Até posso corar se te disser que todas as noites,
quando me afundo na cama,
abraço-me como se fosses tu a abraçar-me.
Peço-me de empréstimo.
Enquanto os teus braços estão aí,
noutro lugar do vento


Ana Salomé

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Era assim


queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?
quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres

Ana Hatherly