sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015




diz o blogger que a partir de março "toda a nudez será castigada" 
eu digo que o puritanismo é uma das formas mais sublimes de hipocrisia 
e deixo-lhes esta magnifica foto da francesca woodman


Ana P








Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
 mas tu ignoras porque te queres na minha boca. 





 Herberto Helder

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015




- Abandonou-te?
 - Pior ainda: esqueceu-me



 (lá fora começaram a florir as magnólias)





 Mario Quintana
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015




Morrerei sem retratos. Nem de mim nem de ti
 nem de uma ou outra mão que me tocou o ombro.
 (O esforço é um revigorante da memória – 
deixemos o assunto por aqui).
 Morrerei sem cadastros, sem datas ou saltérios,
 com que embalar as noites às crianças do bairro,
 e dessas perdas a que mais me doerá 
é a caligrafia do teu punho nervoso. 





 Miguel Martins
(Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015




Habituou-se a chorar mais tarde 
no seu quarto em casa das tias 
quando ninguém está a ouvir 
depois de tudo lhe ter doído
 as unhas
 os cabelos
 e o coração 





 Adília Lopes
(Foto de Nishe)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015




Como nos bares decrépitos
 do red light district, há letras
 do meu nome que já não
 se acendem e outras
 que piscam ou
 tremeluzem 
a noite inteira 




 José Mário Silva

sábado, 21 de fevereiro de 2015




Até quando no túnel sem saída, 
no bosque feito de espinhos, no poço? 
Até quando instalada na esperança 
dos que nada esperam? 
Até quando perdida em labirintos, 
em cidades sem luz, em pesadelos 
que não terminam quando acaba o sonho? 
Até quando engolindo
 névoas espessas, desconcerto, vertigem? 
Até quando sem ti? 
Até quando com outros?





 Amalia Bautista
(Foto de Nishe)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015




porque no meu jardim só crescem rosas de pedra




 (há muito tempo que não comprava um livro)



Se não lhe faltasse
 o sentido de orientação 
era uma ave o amor





 José Carlos Barros

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015




Há dias em que desejaríamos amar quem quer que fosse desde que igual ou só parecido com tantos outros e, desde logo, com nós próprios, alguém que nunca compreenderemos. Dias de puro terror em que não apenas não acontece nada como 

 Dias há em que os próprios dias acontecem. Ou nem isso. Tempo não chegando a ser dia, morto ainda antes de nascer 

 Puro terror. Dias em que desejaríamos qualquer mão e qualquer uma nos assusta como se nos arrastasse para o nada, onde, paradoxalmente, sabemos que poderíamos encontrar descanso. Uma teimosia irracional impede-nos de

 Porque não sabemos mais se avançar, se recusar, se baixar os braços, ou só um e qual, se levantá-los, um só?, mas qual. Permanecemos sentados à espera duma resolução que não chega, mas quando chega, e sabemos que basta esperar, é tão irrisória como qualquer outra, beber um copo de água, comer um pão com geleia, admirar o doce da geleia na língua e saborear a sua cor tão parecida como a do sangue. 





 Bénédicte Houart
 (Foto de Natalia Drepina)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015




O coração que me deixaste é uma casa difícil de habitar





 Renata Correia Botelho
 (Foto de Laura Makabresku)

domingo, 15 de fevereiro de 2015




Havia um sonho. Havia uma
 esperança. Havia. Havia. 
Mas o sonho também cansa 
e a esperança está vazia. 

 Havia um sonho e uma esperança 
Pois havia. 





 Joaquim Pessoa
 (Foto de Natalia Drepina)

sábado, 14 de fevereiro de 2015




O amor, esse sufoco, agora a pouco era muito,
 agora, apenas um sopro




 Paulo Leminski

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015




Faz-te forte. Hoje é preciso fingir. 
 Não te mostres, nem mesmo ao simpático desconhecido. 
 Mantém-te alerta ou cometes os mesmos erros na forma idêntica. 
Agarra-te bem. Como na montanha russa.
 Nunca se sabe quantas quedas tem a viagem. 
 Tem pressa em ser amanhã. É lá que habita a nudez. 
 E todas as coisas puras que existem, não em ti, não desta maneira. 
 Limpa a imundície. Sobretudo, entre os olhos e a boca. O lugar escuro; do medo.
 Preenche esse espaço com compotas e mel. E não fiques à espera. 
 Alguma língua há-de descobrir-te o rasto. 




 Cláudia Lucas Chéu
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015




acordar. ouvir Galliano. acariciar os gatos e reclamar do frio 
um dia hei-de esquecer-me de ti




Ana P

domingo, 8 de fevereiro de 2015




todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor nao serve de nada. ficaram só
 os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a a cinza dos cigarros e da morte. 
 os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
 demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas. 
 sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
 não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
 nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder. 





 José Luis Peixoto

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Lista de espera




essa a vida que eu quero, 

 encostar na minha
 a tua ferida








É impossível
 quando procuras
 um mapa 
um espelho 

 um lugar onde assinalar estes desaparecimentos 





Marta Chaves
(Foto de Katia Chausheva)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015




a casa agora é feita d'ângulos agudos,
 de perguntas, de poços descobertos,
 e nós perdemo-nos por dentro d'outros mundos
 por portas que se abriram para dentro. 
 O meu coração repousa 
na cave no meio da minha vida 
e eu vagueio lá fora entre os sentidos. 
Sou eu quem chama, não me ouves bater? 





Manuel António Pina

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

´


Notícias da minha vida — para quê?
 O que tu possas imaginar dela talvez tenha mais encanto.
 Notícias minhas? Caberiam em três palavras: — Tento, apenas, esquecer-te! 





 António Botto

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015




Escrevo-te cartas que difundem o meu silêncio





Marta Chaves
 (Foto de Laura Makabresku)



ao contrário de Koltés, eu digo que é alarmante ser-se ferido
 quando se esperava ser acariciado




Ana P
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015











Desistir do rosto, dos propósitos, das
 palavras. Há sílabas assim.
 Com a vergonha do afecto
 emprestada ao desalinho das mesas. 
Por ali, encenando a imobilidade, 
a rudeza de haver dor. 
 Eu sei que não virás. 
Bebo por ti, sem ti, contra ti, 
com o coração no bengaleiro 
a fingir que não, não faz diferença. 
E o pior é que até faz, 
por muito que ninguém o saiba. 





 Manuel de Freitas