quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um poema de amor


... e ele dizia-me se tu
fores um poema de amor
eu apaixono-me por ti e
eu desaparecia boca
fora para dentro dele
 
Valter Hugo Mãe

As minhas noites..


A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ou talvez tocar-te



Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
Só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
Al Berto

Viradas a sul


E a minha alma tem agora amplas janelas, viradas a sul, com vista para o lago dos teus olhos.


Inês Pedrosa

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

És tu


Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
— És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.
Antonio Botto

Voa


Voa coração!
Ou então arde


Eugénio de Andrade
.

domingo, 27 de setembro de 2009

Hoje é o dia



Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.

Fernando Teixeira de Andrade

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Se ao menos



Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos


Joaquim Pessoa

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dias Assim


Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois de mim
de nós
de tudo
não reste mais nada
Porque hoje o coração rebentou-me nas mãos

Desprevenida

Chegaste
com tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
uma folhas aqui e ali
uns ramos...

Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.
Ivette Centeno

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ninguém imagina



Não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires. O teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.
Não penso para onde foste porque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. Tenho um silêncio
dentro. Toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.Sinto o que sentiste.
Fico acordado de noite, com a esperança secreta de que possas regressar.

José Luís Peixoto,

Rifa-se um coração







Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros......

Clarice Lispector

domingo, 20 de setembro de 2009

Escrevo-me


Escrevo-me.
Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto.
E o que sinto é o que existo e o que sou.
Escrevo-me nas palavras mais ridículas:
amor, esperança, estrelas,
e nas palavras mais belas:
claridade, pureza, céu.
Transformo-me todo em palavras.

 
José Luis Peixoto

sábado, 19 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O que será...


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita


Chico Buarque

Datebook


É a distância o parágrafo dos olhos



Maria Teresa Horta

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O que será...


O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
Chico buarque

Dias assim

Hoje o espelho não me quis ver

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que será...



O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores que vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque

No trapézio da manhã

Sê tu a água que me desata o olhar
a mão que me acorda
um beijo flutuando com esta música no trapézio da manhã


Daniel Gonçalves

terça-feira, 15 de setembro de 2009

E por vezes a razão..



Acendo um cigarro e falo com o meu coração:


Esta noite tive um sonho, conheci um homem que tinha o mar no lugar do coração e quando sentia o seu corpo contra o meu, ouvia lá fora a fúria do mar.

Devagar tudo o que nos rodeou foi-se tornando negro, e despeço-me de um rosto pelo qual arrisquei a vida e, por vezes, a razão.

Amo-te ainda.


Al Berto

domingo, 13 de setembro de 2009

Dias assim


Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías

não nos tocámos enquanto saías.
não nos tocámos enquanto saímos.
não nos tocamos e vamos fugindo
porque quebramos como crianças
afinal quebrámos os dois
e é quase pecado o que se deixa
é quase pecado o que se ignora

 
 
Toranja

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Amor perfeito


Não pude ser o teu amor perfeito....

As palavras




As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala
Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição
Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente
Amando muito muito
ficamos sem palavras


Ana Hatherly

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Queria de ti...


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor.
Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim.
Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás.
O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atiravam pedras ao rio.
Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel.
Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu.
Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão.
Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes?
Que viesses.
Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte.
Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar.
Eu nunca quis de ti uma continuidade. mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes?
Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem.
Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura.
Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses.
Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica.
Que me convidasses para dançar.
Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto.
Um minuto.
 
Filipa Leal

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Digam-lhe..


Peçam-lhe que venha tão
depressa digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros
cada vez menos
 
Valter Hugo Mãe

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Noites assim...



Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta

Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?




Jorge Palma


Que bem me quer

Que bem me quis.....
Que mal me quer......

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vestígios de mim




Na mala que nem o Anjo da Guarda,
Nem o Delegado do Distrito,
Nem eu mesmo consigo encontrar,
Está a minha imagem única, fechada a chave-
E a chave caída no fundo do mar!
Não adianta chamar escafrandos,
Nem homens-rãs,
Nem a sereia mais querida,
Nem os atenciosos hipocampos, de que adianta?!
Não existem vestígios de mim...
Mario Quintana


domingo, 6 de setembro de 2009

Na primeira manhã


Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansada que sozinha
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina.....

sábado, 5 de setembro de 2009

E sonho-te



Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.





Mia Couto

Gotas de Colírio

É fim de semana ... e os dias continuam quentes ...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Confesso...


Confesso que acordo
Com o sabor dos teus beijos
Espreguiçando-se em meus lábios
Confesso que em meus ouvidos
Ainda permanecem os teus gemidos
Musicando minhas lembranças...


Fernanda Guimarães

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Momentos assim



Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.
 
 
Clarice Lispector

EU


Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Eu caminho desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura.
De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir,
embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco.
O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina.
E a minha lucidez é que é perigosa.
 
Clarice Lispector