segunda-feira, 30 de maio de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras





Um cigarro
ninguém tem
um cigarro?
um copo de vinho
um amor perdido
uma causa iludida
uma angústia a mais?
alguém quer trocar
de veias
de sangue
de coração
de pulmões?
um cigarro
ao menos
ninguém tem
um cigarro?



Carlos Alberto Machado



Da insónia

Não consigo dormir.

Tenho um homem atravessado entre minhas pálpebras.

 tenho um homem atravessado na garganta

Eduardo Galeano (adaptado)

domingo, 29 de maio de 2011

Tapa-me





Tapa-me.

Tenho frio.

Sempre o mesmo frio.

Tapa-me. Tapa-me.

Tenho frio.


Carlos Alberto Machado

Coisas do amor


Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor.

E era uma coisa do amor, isto tudo.

São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro.

Tem de se estar sempre a fazer suposições.

Nunca se sabe como e até que ponto e até quando.

Quando se perde tudo pela primeira vez fica-se com o terror de perder todas as vezes.

O primeiro amor dá cabo de nós.

E o último é sempre o primeiro.

Pedro Paixão

sábado, 28 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Das surpresas



Quando menos estás à espera a maçã que já trincaste
vai saber de novo a sumo.

João Luis Barreto Guimarães


terça-feira, 17 de maio de 2011

Teatro de sombras


Alguém joga xadrez com minha vida, alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa como quer: talvez seja esta a minha condição.
Alguém dirige o teatro de sombras no qual fui ré sentenciada.
Finjo entender de tudo: ando de um lado e outro, faço gestos com a mão,
cuspo as sementes do fruto entalado na garganta como um grito:
Alguém aí pode me ouvir?
Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
Nesse reino todos usam disfarces, menos a solidão.
Lya Luft

segunda-feira, 16 de maio de 2011

domingo, 15 de maio de 2011

Um dia





Um dia, um homem transformou-se em pássaro e
voou à volta da mulher que esperava que um
pássaro se transformasse em homem.



Nuno Júdice

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dúvidas


.......


Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?






Manuel António Pina

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Espelho

Que rompam as águas:

é dum corpo que falo.

Nunca tive outra pátria,

nem outro espelho,

nem outra casa

Eugénio de Andrade

domingo, 8 de maio de 2011

Perguntas




Se te perguntarem por nós, sobre que coisa fazemos quando estamos juntos,


diz a verdade

que deslocamos os cometas sem querer, as estrelas para desenhos

e a lua garantindo o amor...










Valter Hugo Mãe

sábado, 7 de maio de 2011

Gotas de Colírio





........
Podes nadar em orgulho ao saber que todos os copos que bebi foram por ti.
Que os cigarros que fumei ansiosa e apressadamente foram pela saudade do teu corpo......


Jose Eduardo Agualusa

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pedir demais


O suor e as lágrimas são iguais

tenazes e salgados como o mar dos meus sonhos

e o oceano abissal dos meus pesadelos.

Não quero pedir demasiado...

mas gostava de suar um pouco mais

e chorar um pouco menos.




terça-feira, 3 de maio de 2011

Silêncios

Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.

Vasco Gato


segunda-feira, 2 de maio de 2011

domingo, 1 de maio de 2011

Mãe





Mãe vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas, que ainda não viajei!! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! Verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar, tenho sede! Eu prometo saber viajar...

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens.

Aquelas que eu viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos as minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a mão sobre a minha cabeça!
Quando passas a tua mão sobre a minha cabeça é tudo tão verdade.



Almada Negreiros