quinta-feira, 31 de março de 2011

Depois volto



Não te esqueças de, ao sair, deixar a porta aberta.

Podes perder a chave e não entrar.

Ou podem roubar-ta, o que é pior.

Porque são numerosos os ladrões do azul.

Albano Martins

quarta-feira, 30 de março de 2011

Demoras

... a última vez que te vi partias.

como sempre...

... tomaste o caminho do vento e por lá te demoras...

Isabel Mendes Ferreira

terça-feira, 29 de março de 2011

Escolhas

De todas essas pedras, todas.

Uma sò, onde passa o vento,

escolho para meu uso e alegria

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ao longe

Quando ao longe a tua voz me acena, e a fúria do dia que nos pesa se faz manhã clara, Reinvento todas as rimas da primavera.

Renata Correia Botelho

sábado, 26 de março de 2011

Era assim que dizias




És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.


E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?


E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.


E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?


E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

TU eras um poeta
Eu era a tua poesia


Mia Couto

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fui-me embora




Hoje soltei os pássaros
fechei a porta da gaiola
e voei com eles
Fui-me embora

Luísa Veríssimo

quarta-feira, 23 de março de 2011

É inutil




Inútil dizer-te
da cidade
que vou perdendo.

Cada uma destas pedras
me diz
da distância entre nós dois.
Permaneço
(todo silêncio
e portas)

Eduardo Pitta


terça-feira, 22 de março de 2011

Dizer-te




Como dói
esta calma impensada
esta perfeita geometria
esta arquitectura
esta precisão
com que lentamente
constróis
um mundo sem mim
Javier Galarza



segunda-feira, 21 de março de 2011

Diz-me




Tu, que subitamente me esqueceste,
diz-me como farei para esquecer-te.
Norberto Ávila


Dia de Poesia




Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único

Ferido de mortal beleza.


Mário Quintana

domingo, 20 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Dias Assim




Um seixo em cada mão e o mar
às costas.
A tua ausência será

um calendário de pedras

Renata Correia Botelho

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desarrumas-me as noites





Uma a uma, as coisas do mundo,
as noites desarrumadas,
as mãos que as arrumam
entre chama e sono.


Herberto Helder

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras




A noite chega
e depois da noite a escuridão
e depois da escuridão
olhos
mãos
e respiração e mais respiração
e o som da água
que da torneira
goteja goteja goteja.

Em seguida dois pontos vermelhos
de dois cigarros acesos
o tique-taque do relógio
e duas cabeças
e duas solidões.




Forough Farrokhzad


Dias Assim




A vida...
Branco ou tinto, é o mesmo:
é para vomitar.



Fernando Pessoa [Alvaro de Campos]

domingo, 13 de março de 2011

Por isso




Não apagues a tua boca agora. Quero desenhar-me rosa-dos-
ventos na vela do teu peito e sairmos de olhos fechados
para a aventura sem âncoras de circum navegação terrestre.

Neste quarto, as mãos perdem a razão. Neste quarto, as mãos
são meramente mãos. Não apagues a tua boca agora.

É quente a noite dos nossos corpos. Por isso dormimos sobre
a água. Por isso nos evaporamos como se uma canção antiga
Por isso a terra inteira.



Vasco Gato

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fogo Posto




Os dedos com que me tocaste persistem sob a pele,
onde a memória os move.

Luis Miguel Nava

Diálogos Íntimos




A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo.



Ana Merino

quarta-feira, 9 de março de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras


Eu pronuncio teu nome nas noites escuras quando vêm os astros beber na lua e dormem nas ramagens das frondes ocultas

E eu me sinto oco de paixão e de música.

Louco relógio que canta mortas horas antigas

Eu pronuncio teu nome, nesta noite escura, e teu nome me soa mais distante que nunca.

Mais distante que todas as estrelas e mais dolente que a mansa chuva

Amar-te-ei como então alguma vez? Que culpa tem meu coração ?

Se a névoa se esfuma, que outra paixão me espera ?

Será tranquila e pura?

Se meus dedos pudessem desfolhar a lua !!


Federico Garcia Lorca

sexta-feira, 4 de março de 2011

Dias Assim




A poesia continua sempre presente:
Ás vezes apenas num verso
e ultimamente cada vez mais no silêncio
Jorge de Sousa Braga


quinta-feira, 3 de março de 2011

A sul


...
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida


Jose Luis Tinoco

quarta-feira, 2 de março de 2011

Palavras perfeitas em noites escuras

Aposto

O meu coração tem muitos quartos despidos de tão vazios nada lá cabe. Durmo todas as noites num quarto diferente procurando-te ou fugindo-te não decidi ainda. Um dia escondi-me atrás dos batimentos no teu peito e pensando-me ausente partiste. Agora divido-me por essas noites e pelos dias nos quartos cheios de velharias.
Aposto que estás algures nos corredores.
Pedro Jordão

terça-feira, 1 de março de 2011

Cerco Voluntário


O cerco dos teus olhos é o meu país voluntário.
Prescindo de resolver a noite na ânsia cardeal de te marginar.
Ao fundo, as linhas inquietas com que se desmancha a chuva.
Depois, o fôlego urgente de um elemento mais descuidado:
o teu nome crescido sem letras,
desmantelado às cegas por poços e tendões.

Vasco Gato