sábado, 29 de dezembro de 2012

Balanço


No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.



Eugénio de Andrade

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Este inverno


A magnólia floriu este inverno
e eu não sei como dizer-te
que me comove ainda que dê flor



José Rui Teixeira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Alfabeto dos dias


Por vezes, de um dia que vivemos,
de um filme, de um poema... por vezes de alguém,
 conservamos uma palavra.
 Não saberemos explicar porquê,
mas essa palavra aloja-se dentro do nosso pensamento,
atravessa vagarosamente os nossos silêncios,
fecha-se à chave dentro de nós.


José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

 

Talvez seja Natal

 
 
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
  num presépio, num prédio, num presídio
  no prédio que amanhã for demolido...
  Entremos, inseguros, mas entremos.
  Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
  Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
  De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
  talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira

sábado, 22 de dezembro de 2012

Lament

 
 

Rosa dos ventos


Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
  preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio.
Tenho uma ilha adiada no peito.
  É a época das marés vivas. Pressinto-o,
  pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.


Graça Pires

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Tanta coisa


Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido,
de que haja tanta coisa em mim além do conhecido,
tanta coisa sempre silenciosa


  Clarice Lispector

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Confissão


Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece


  Nuno Júdice

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mil noites menos uma


Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.



Amalia Bautista

No meu peito não cabem pássaros




Nuno Camarneiro

domingo, 16 de dezembro de 2012

Era domingo


tem medo e em dias curtos
  decide envelhecer no interior da casa
  ao sono conhece-o como fuga ao silêncio
um dia escreveu (era domingo)
  sobre os vestígios da respiração nos pequenos nadas
anos depois refugia-se no outono
como quem vê a vida toda nas folhas.


  Maria Sousa

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Pousado no peito


ouve-se o mar quando adormeço
uma vaga de marulhar sobe-me o peito, a respiração ofegante
quando fazes de mim a tua manta...


Al Berto

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ladainha


Concha perfumada
Pórtico real
Princesa das flores
Porta misteriosa
Pérola vermelha
Coração de peónia
Pegada de gazela
Pórtico de jade
Palácio de púrpura
Delta negro
Pote de mel
Botão de lótus
Gruta de canela
Porta alada
Flor da lua
 
Rogai por nós


Jorge Sousa Braga

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

Memória da pele


Não há memória mais terrível do que a da pele.
A cabeça pensa que esquece,
  o coração sente que passou,
mas a pele arde, invulnerável ao tempo.


  Inês Pedrosa

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Dias manuais


ata e desata os nós aos dias metereológicos, dias orais,
manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à lingua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim
como um sufôco,
ou isso


Herberto Helder

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Também eu


O gato olha-me
ou o meu olhar olhando-o?
E eu o que vejo senão
a mesma Única solidão?
Chamo-o pelo nome,
pela oposição.
Em vão:
sou eu quem responde.
Virou-se e saltou
para o parapeito
real e perfeito,
sem nome e sem corpo.
(Também eu estou,
como ele, morto).


Manuel António Pina

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

De repente


O momento das carícias voltou a entrar no quarto, pediu desculpa por ter-se demorado tanto lá fora, Não encontrava o caminho, justificou-se, e, de repente, como aos momentos algumas vezes acontece, tornou-se eterno.



José Saramago

domingo, 2 de dezembro de 2012

Preocupações naturais


Eu não tinha muita coisa e hoje tenho a soma dos teus passos quando desces a correr os nossos treze degraus e me prometes: até logo. Mas se nada (ou só o nada) está escrito, quem mais ama é quem mais tem a recear. Com isso, passo as horas num rebate de dramáticos motivos: engano-me na roda dos temperos, ponho sal na cafeteira, maionese no saleiro, vejo o mel mudar de cor e se me chama o telefone empalideço como o rosto do relógio da cozinha. Só sossego quando as gatas me garantem que chegaste e posso então, aliviado, unir-me ao coro de miaus que te recebe, para mais uma noite roubada ao escuro


José Miguel Silva

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nos dias tristes é Inverno


Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração...



Filipa Leal

sábado, 24 de novembro de 2012

Precário equilíbrio


Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
  Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
  Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
  Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!


Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Calendário das dificuldades diárias


Hei-de sobreviver ao meu próprio caos,
  antes que a noite seja mágoa no poente e, por dentro das manhãs,
  morram os pássaros sufocados de tristeza.
 

Graça Pires

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Portas entreabertas


Não deixes portas entreabertas
Escancare-as.
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas.
Passam apenas semiventos.
Meias verdades
E muita insensatez.


Flora Figueiredo

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Não digo


Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...



Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

Trouxe o domingo para dentro de casa


Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
O teu lugar à mesa ficou vazio. Eu passei a coleccionar
os nomes de coisas distantes, sentei-me a desenhar
sistemas de coordenadas, soletrei os hemisférios
das palavras, regressei às zonas epidérmicas do toque,
à fome anatómica dos gestos, às regiões endémicas
dos sismos, à solidão unívoca das margens dos rios,
ao silêncio lento das magnólias. Trouxe o domingo
para dentro de casa e guardei-o junto ao parto
em que me deste à luz.
Digo: Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.



José Rui Teixeira

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

E pela noite


Quem me dera que a chuva viesse e nos diluísse um ao outro,
e pela noite corrêssemos como um regato em direcção ao mar.


Al Berto

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Assim tão triste


hay diez centimetros de silencio
entre tus manos y mis manos
una frontera de palabras no dichas
entre tus labios y mis labios
y algo que brilla asi de triste
entre tus ojos y mis ojos


  Mario Benedetti

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Silêncios


Silêncios, silêncios de todos os géneros circulam no meu sangue.
Silêncios inexplicáveis, silêncios que vêm dalgum lado desconhecido
do meu corpo, do sul muito ao sul da memória


Al Berto

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sobre o meu corpo


Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado.
A verdade é que nunca soube o nome dessa flor
que nalguns olhos abre logo de madrugada.
 Agora para saber é tarde.
O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
 um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa
 É sobre o meu corpo que chove


  Eugénio de Andrade

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tocas-me?


(...)
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.


Vasco Gato