quinta-feira, 19 de maio de 2022

quarta-feira, 11 de maio de 2022

não sei o que fazer com a minha solidão



 

Punha o coração no trabalho, 
que mais podia fazer,
 não ia deixá-lo em casa 
o dia inteiro sozinho
 a comer porcarias e a ver televisão. 






 Raquel Serejo Martins
 (Giulia Rosa)

segunda-feira, 9 de maio de 2022

teoria do caos



 

Na superficie
da minha pele humana
há restos
de saliva, beijos, carícias, mordidelas
esperma,
chupões,
cortes, feridas, golpes, chagas,
suor, cicatrizes,
esfoladelas, sangue, crostas, pisaduras, lesões,
arranhões,
bofetadas,
varizes, bolhas e queimaduras

Não preciso de perfurações nem de tatuagens,

o meu corpo
é um mapa






Anna Gual

quinta-feira, 28 de abril de 2022

quando chegarei eu?




Aguardo o pôr-do-sol 
 quando os pássaros cantam
 e a terra exala um cheiro quente
 a caruma e tojo. 
 No meio das árvores
 a romãzeira florida parece descansar. 
 Chegou ao fim do seu dia.
 Olho o sol.
 E eu
 quando chegarei eu?






 Ivette Centeno

domingo, 24 de abril de 2022

a paixão



Saímos do amor como dum desastre aéreo 
Tínhamos perdido a roupa os documentos a mim faltava-me um dente e a ti a noção do tempo 
Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia? 
Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
 Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.






Cristina Peri Rossi

quinta-feira, 14 de abril de 2022

oração



 

Eu queria cantar para dentro de alguém, 
sentar-me junto de alguém e estar aí.
 Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
 e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. 
Queria ser o único na casa
 a saber: a noite estava fria. 
E queria escutar dentro e fora
 de ti, do mundo, da floresta. 
Os relógios chamam-se anunciando as horas 
e vê-se o fundo o tempo.
 E em baixo ainda passa um estranho 
e acirra um cão desconhecido. 
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos, 
muito abertos, pousaram em ti;
 e prendem-te docemente e libertam-te
 quando algo se move na escuridão. 







 Rainer Maria Rilke