quarta-feira, 26 de julho de 2017

dá-me para a melancolia




Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
 por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

 Mas  dá-me para a melancolia
 para a limpeza, para a harmonia,
 impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
 da pintura do tecto,
 as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

 Trocaria bem esse dia
 por um pouco de arrumação
 - no quarto e no coração. 






 Manuel António Pina

segunda-feira, 24 de julho de 2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

certos amores




Tenho saudades, dizias.
 Saudades do que foi, do que está a ser, do que será, sobretudo do que não será






 Manuel Alegre  (A Terceira Rosa)

quarta-feira, 19 de julho de 2017




Foto de Sónia Silva



Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. 
Contudo, há horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder






 Raul Brandão

terça-feira, 18 de julho de 2017




É já tempo de não esperar ninguém. 
Passa o amor, fugaz e silencioso 
como ao longe um comboio nocturno
 Não resta ninguém, é hora 
de voltar ao desolado reino do absurdo, 
a sentir culpa, ao vulgar medo
 de perder o que já estava perdido.
 À inútil e sórdida moral.
 É já hora de dar por vencido no trabalho,
 a sós, outro Inverno. 
Quantos faltam ainda, e que sentido
 tem esta vida onde te procurei, 
se chegou já a hora tão temida
 de comprovar que nunca exististe? 






 Joan Margarit (tradução de Vasco Gato)
 (Foto de Katia Chausheva)