sábado, 25 de março de 2017

o meu amor é um íman na porta do frigorífico




Senta-te e limpa os lábios. 
Acende cada uma das lâmpadas
 Dos meus olhos, 
 Passa a tua mão, a mais nova, 
 Sobre a minha testa. 

 Deixa-me com a noite colada às têmporas, 
 Crisálidas saindo pela boca 
 Como um deus egípcio; 
Quando a manhã chegar 
 Mil anos de terra e esquecimento
 Tornar-me-ão amante por superstição, 
 Aquele que por medo evocarás
 Quando passeares o cão no jardim. 

 Antes de partires deixa o mapa, 
 Em rima cruzada, suspenso 
 Na porta do frigorífico.
 O amor não é um íman. 








Nunes da Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2017

frio




ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.







Al Berto

terça-feira, 21 de março de 2017

a poesia




De que vale tentar reconstruir com palavras 
O que o verão levou
 Entre nuvens e risos 
Junto com o jornal velho pelos ares 

O sonho na boca, o incêndio na cama, 
o apelo da noite
 Agora são apenas esta
 contração (este clarão)
 do maxilar dentro do rosto. 

 A poesia é o presente. 








 Ferreira Gullar
 (Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 20 de março de 2017




Há lugares onde esperar a primavera
 como tendo na alma o corpo todo nu. 








 Herberto Helder
 (Foto de Nishe)