quinta-feira, 21 de novembro de 2019

fórmulas mágicas para sobreviver ao quotidiano



Quando atirei a minha roupa suja para a cave
 esqueci-me que guardava um punhado de ideias no bolso de trás das calças, 
quanto tirei a roupa da máquina de lavar encontrei-as espalhadas
 em pedaços de papel totalmente ilegíveis. 
Desde essa altura tudo me sussurra que estou louca
 porque rezo no oposto a um deus que já não existe, 
e porque me aparecem estigmas nas mãos
 e me vêm ver desconhecidos que comigo passam as noites. 
As minhas palavras afogaram-se em saponária 
e não consigo encontrar-lhes o rasto na minha cabeça. 
As letras que surgiram dos meus dedos que anotei nos papéis que guardei no meu bolso
 eram a minha direcção, o meu nome, o título de um livro, 
as línguas que falo, as coisas que não digo.
 Eram fórmulas mágicas para sobreviver ao quotidiano, 
como abrir o correio e dar os bons dias,como não abrir a porta ao homem sedutor 
que nunca se reflecte nos espelhos. 
Tudo o que anotava eram pequenas pistas que seguia para juntar as partes do meu corpo, 
para não me enganar e para saber quem sou sem ter que pensar duas vezes. 







 Ana Merino

terça-feira, 19 de novembro de 2019

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

de ti



Havia meses que não escrevia
 nem um único poema. 
 Vivia com humildade, lendo os jornais,
 pensando no enigma do poder 
 e nas causas da obediência.
 Olhava para os pores-do-sol
 (escarlates, cheios de inquietação),
 escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
 e o silêncio da noite. 
 Via os girassóis a pendurarem
 as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
 passeasse por entre os jardins. 
 No parapeito recolhia-se
 a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
 se escondiam nas curvaturas dos muros. 
 Dava longos passeios,
 sedento duma coisa só:
 dum relâmpago, 
 duma mudança,
 de ti. 






 Adam Zagajewski

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

perdão




Peço-te humildemente, 
o mais humildemente possível, 
perdão
não por te deixar, 
mas por ter ficado tanto tempo. 






 Marguerite Yourcenar
(Foto de Monia Merlo)