quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

eu vim dizer



Que mais te posso dizer? 
Que te amei de Norte a Sul, sem fundo, 
com unhas e dentes, 
sem segredos. 
sem armadilhas.
 Que não quis ouvir a tua voz mais uma vez, 
nem olhar as nossas fotos,
 nem ver-te acariciar com os teus dedos azuis 
os cães que comem as sobras da tua vida. 

 Eu só quero escuridão e fumo. 
Eu vim dizer
 que te esqueci;
 que vou voltar a esquecer-te a cada dia, 
cada um dos dias da minha vida.







 Benjamín Prado
 (trad. de Maria Sousa)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

de manhã



Quando as luzes
 não vibrarem na pele
 quem colará às tuas ancas
 as suas mãos quem
 percorrerá
 com vastas palavras 
o que pertence
 agora aos beijos
 quando acordar
 deste paraíso nocturno
 e te abandonar quem 
quem será
 a tua companhia. 






 José Ángel Cilleruelo
(Trad Joaquim Manuel Magalhães)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

sou



Estou viva. 
E penso que para além de mim
 não há quem o saiba. 

 Sou por definição inconsciente e
 vinda à mão, uma transparência-mulher
 uma dor não definível que me
 expõe à luz.






 Claudia R Sampaio
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

de repente



Falámos tanto ou tão pouco que de repente o silêncio que se fez foi essa patada no peito de que guardamos a marca quando agora choramos, quando estendemos as mãos carregadas de dedos mortos, sonhámos tanto que mais de uma vez tivemos de matar, que mais de uma vez estoiraram os olhos sob a pólvora das lágrimas e as tuas mãos voaram estilhaçadas, jogámos tanto que para não nos perdermos arriscámos tudo, até tornarmos a morte uma coisa nossa, tão nossa que é ela que anda agora vestida com a nossa pele e os nossos ossos, escorregando pelas paredes de cabeça p'ra baixo ou subindo pelo interior dos bicos, olhando do alto o sangue que ficou no centro, entre os carris, passando de cadafalso em cadafalso com os lábios furados pelas unhas, com a cintura roxa das dentadas da noite, da miséria dos dias. 





 António José Forte