sexta-feira, 20 de janeiro de 2017




Llena con tu sol el vacío de tus noches

 Llena con tu silencio el vacío de tus palabras






 Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017




Foto de Sónia Silva



O azul, o azul rouco, o azul 
 sem cor, luz gémea da sede. 
 Acerca deste rigor 
 tenho uma palavra a dizer,
 uma sílaba a salvar
 desta aridez, asa
 ferida, o olhar arrastado
 pela pedra
 calcinada, húmido 
 ainda de ter pousado
 à sombra de um nome,
 o teu, 
 amor do mundo,
 amor de nada 







 Eugénio de Andrade

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017




Pensei em mentir, pensei em fingir, 
dizer: eu tenho um tipo raro de,
 estou à beira,
 embora não aparente. Não aparento? 
Providências: outra cor na pele,
 a mais pálida; outro fundo para a foto: 
 nada; os braços caídos, um mel
 pungente entre os dentes.
 Quanto à tristeza 
 que a distância de você me faz, 
está perfeita, fica como está: fria, 
espantosa, sete dedos 
 em cada mão. Tudo para que seus olhos 
vissem, para que seu corpo
 se apiedasse do meu e, quem sabe, 
 sua compaixão, por um instante, 
transmutasse em boca, a boca em pele, 
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora. 
 Daria a isso o nome de felicidade, 
e morreria. 
Eu tenho um tipo raro. 







 Eucanaã Ferraz
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017




Touch has a memory. O say, love, say, 
What can I do to kill it and be free? 






 John Keats

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017




O pior é acordar de manhã 
a pensar que nada pode ser igual agora
 e há que levantar e tomar banho 
e arranjar o café como sempre 
e ir trabalhar como sempre
 como se nada tivesse acontecido
 apesar de que aconteceu 
acabou chegou ao fim 
‘é melhor assim’ 
e caminhas rua fora como um sonâmbulo
 a chocar com os transeuntes 
com os ardinas
 e sentas-te num banco de pedra 
sem saber se estás vivo ou morto
 é a mesma coisa
 porque a morte também pode
 ser uma mesa num bar dois martinis secos 
e um par de lábios vermelhos
 pronunciando palavras
 que caem como guilhotinas 







 Óscar Hahn
 (Trad. A.M.)

sábado, 14 de janeiro de 2017




Chove em Santander, 
oiço-te ao telefone dizer que o trânsito 
não te deixou apanhar o avião,
tenho o quarto de hotel todo para mim,
 tenho a janela em frente do jardim, 
tenho todo o fim-de-semana para mim,
 tenho um ramo de tulipas encarnadas para mim, 
tenho os lábios pintados de carmim, 
tenho dentro do peito a impensada certeza do nosso fim, 
tenho um mini-bar com garrafinhas de gin, 
com pacotinhos de amendoim, 
tudo tão inho, tão aí flores do verde pinho, 
e chove em Santander, 
avisaram que ia chover Sábado e Domingo, 
seria um pleonasmo chorar.





 Raquel Serejo Martins