terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Essa mulher



Ela queria fazer tudo:
 picar-se no dedo morder a maçã seguir o coelho 
Mas ao fechar os olhos 
esborrataram-se os sonhos.




 Miriam Reyes
(Foto de Katia Chausheva)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Um dia


E chega um dia em que reconhecemos
 finalmente 
a injustiça das palavras -
 exactamente as mesmas
 para quem vai e para quem fica
 um dia 
em que não há mais passado para contar
 nem mais futuro para viver
 apenas uma velha cantiga a embalar
 uma casa desaparecida 
e este limbo ocasional
 onde o corpo espera que anoiteça




 Alice Vieira

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Às vezes apetece-me oferecer-te um presente







Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, 
chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? 
A chuva vai trazer-me paz e amor? 
A chuva vai lavar-me?
 Lava-me tu. Lava-me tu. 




 Nuno Moura
(Foto de Katia Chausheva)

domingo, 19 de janeiro de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Ouve-se sempre a distância numa voz



por vezes a tua cara torna-se nítida e insuportável. outras vezes, esbate-se e com o esbatimento vem-me a resignação de te ter perdido. Às vezes esqueço-te. Ou ficas escondido numa casa, num quadro, numa árvore, de onde ressurgirás. Um dia olharei o quadro, a casa, a árvore, e lembrar-me-ei de ti. Mas cada vez haverá menos sítios onde te esconderes.




Rui Nunes
(Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Calendário das dificuldades diárias



vagueio pela casa 
rente aos ângulos estreitos dos corredores, 
sem saber por onde fugir-me 




 Al Berto
(Foto de Katia Chausheva)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Noites preenchidas de demónios e quimeras




Depois, pela manhã, 
lambo as feridas,
 penteio-me como se
 tivesse dormido, como se
 não fosse nada.





 A. M. Pires Cabral

sábado, 11 de janeiro de 2014

Private post


...
Quanto a mim, quero só que saibas que foste
 o único amor da minha vida.
 E que tenho vivido estes anos todos só com a ilusão
  de voltar outra vez a esse hotel, 
encontrar-te a dormir 
e acariciar-te o cabelo. 





 Pablo García Casado

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A nossa vida


A nossa vida como nos filmes 
imagens a passar muito depressa - folhas -
 os pés a subir direitos rumo ao sol 
as olheiras escondidas atrás de lentes escuras:
 a nossa vida - filmes - uma voz que te chama, 
é de noite e ainda não encontraste
 o teu lado certo na cama, agora que a cama 
é toda tua, e o roupeiro, e a janela, e o chuveiro. 
Abres a porta do frigorífico e faltam os iogurtes
 dele, uma cerveja, a nossa vida:
 filmes - a rever pela noite fora - filmes, 
lembras-te de quando eram felizes 
e namoravam a olhar o rio ou o mar - 
água corrente é qualquer coisa de romântico -
 lembras-te de quando eram mistério
 e os dez dedos das mãos serviam para descobrir,
 lembras-te de quando as palavras
 ainda só serviam para amar ou seduzir:
 a nossa vida, hoje, como nos filmes,
 como uma fita a andar às voltas
 em frente de uma luz, perigo de fogo, 
as unhas roídas porque é fim-de-semana
 e os passeios com ele não se repetem, 
porque é fim-de-semana, dolorosamente, 
e à hora que ele sai do trabalho continuas sozinha,
 a nossa vida, a nossa vida, a nossa vida. 





Luís Filipe Cristóvão

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Noite dentro


não uma e meia nem sete nem quatro, 
trinta e oito da madrugada, 
duzentas e onze da manhã, 
e uma escuridão infinita 




 António Lobo Antunes

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O que eu quero


Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver, não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada, odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, o que eu quero é uma voz que me queira, um momento de descanso nessa voz.






Rui Nunes
(Foto de Katia Chausheva)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O caos


Lutar com as palavras, progredir
 pelo interior desta guerra até chegar 
à palavra única da perda, esmagá-la 
contra mim, obriga-me a dizer
 o seu corpo dizimado. 
O caos. 
Os cacos. 




 Rui Nunes
(Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Geografia íntima


o que me dói tem um nome que não obedece a mapas:
a memória é um tempo desavindo.
 



Rui Nunes

domingo, 5 de janeiro de 2014

Dúvidas

 
beija-me despe-me faz de mim o que quer
estou bêbeda tudo anda à roda tenho de ir
à casa de banho duas vezes para não lhe vomitar em cima
vai-se embora cedo a toda a pressa não há despedida
nota justificativa ou telefone de contacto só dúvidas
todos os homens são príncipes às cinco da manhã
todas as putas são tu quando acordas e não há ninguém





 Pablo Garcia Casado
(traduzido por Joaquim Manuel Magalhães)

sábado, 4 de janeiro de 2014

Fogo posto



Teu corpo
é linguagem pura
Frágil refúgio
da minha loucura
Metade prazer
Metade tortura





Lau Siqueira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014