sexta-feira, 26 de dezembro de 2014




pus a mão na boca para
 amordaçar a dor, mas
 era tão mais forte que
 mesmo a mão gritou. 





 Bénédicte Houart
 (Foto de Nishe)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

É Natal



É Natal, nunca estive tão só. 
Nem sequer neva como nos versos 
do Pessoa ou nos bosques 
da Nova Inglaterra. 
Deixo os olhos correr
 entre o fulgor dos cravos
 e os dióspiros ardendo na sombra. 
Quem tem assim o verão 
dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só, 
não devia.





 Eugénio de Andrade
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sem saber



Cai um sino do pinheiro de natal. 
Por muito menos se foge de casa 
de seus pais. Agachados sob o leque
 das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
 são fáceis de engolir. Sem saber,
 já chegamos ao escuro. 
Só nos falta pôr o til na palavra solidão. 





 José Miguel Silva
 (Foto de Nishe)

domingo, 21 de dezembro de 2014

O dia mais curto



Acordámos com o céu encostado
 no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
 o domingo, a partir do alto das montanhas 
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, 
como dois miúdos que não têm para onde ir. 
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, 
nem tristes nem alegres, metidos no roupão 
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
 por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos 
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume, 
palitando os dentes com a ponta da navalha. 





 Vítor Nogueira

sábado, 20 de dezembro de 2014

Perdas e danos



O amor me fere é debaixo do braço, 
de um vão entre as costelas. 
Atinge meu coração é por esta via inclinada. 
Eu ponho o amor no pilão com cinza
 e grão de roxo e soco. Macero ele, 
faço dele cataplasma
 e ponho sobre a ferida. 





 Adélia Prado
(Foto de Laura Makabresku)








sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Dos dias



O musgo de presépio secou-te entre as pernas
 foram-se os natais que te iluminavam
 também as minhas palavras
 estão cansadas
 exauridas. 





 Carlos Alberto Machado
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014




em vez de cortar os pulsos
 cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
 para lhe perguntar por que não tocas. 




 José Miguel Silva

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014




e eu nem sei, 
 neste rumor de tudo quanto amei, 
 se a luz madrugou ou chegou tarde 




 Eugénio de Andrade

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Espelhos



e só agora penso: 
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim
 mesmo? 
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
 ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso. 
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
 - cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados
 pelo fundo e amargo espelho velho: 
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente 
o mesmo 





 Herberto Helder
(Foto de Katia Chausheva)

domingo, 14 de dezembro de 2014

Metáfora



Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los 
o silêncio o domingo será como
 falar da escuridão e que metáfora
 mais certa se as há certas, para a ínfima
 luz própria metafórica do dia 
 A tua voz então vem como nave
 a si mesma sulcar-se, na penumbra
 tornando-se, não sei se mais igual 
ou mais diversa do escuro sentido
 do sentido,o tema interrompendo
 do poema: o silêncio o domingo 





 Gastão Cruz
 (Foto de Katia Chausheva)

sábado, 13 de dezembro de 2014

Dos estilhaços


As meninas armadas são as mais belas,
 têm no coldre uma arma
 lotada de munições, 
pronta a ser sacada em inúmeras situações. 
As meninas armadas não fazem rimas 
Dão tiros nos poemas
 e mandam autopsiar o corpo para reaverem as balas 





 Cláudia Lucas Chéu

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Fragmentos para dominar o silêncio



estranha que fui 
quando vizinha de longínquas luzes 
acumulava palavras tão puras 
para criar novos silêncios 




 Alejandra Pizarnik

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ao amanhecer



As lágrimas não sabem
 o que dizem, deixam-se cair 
em turvos argumentos, 
lembram-se de coisas 
Quase nos estragam as bebidas. 
 Ao fim de três whiskies, 
abres uma porta
 e tudo se aclara. 
As memórias, os cadernos, 
os aprestos do negrume,
 ficaram para trás. 
 Agora já conheces
 os fósforos que tens,
 abriga-os da chuva de dezembro.
 Quem sabe que cigarros
 estarão à tua espera. 





 José Miguel Silva

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Não sei



Como pode
 a mais frágil borboleta
 transportar em si
 montanhas
 cidades rios oceanos
 a bandeira caída no azeite
 o poente cigano que pede boleia 
a nuvem em tamanho natural 
a metafísica do sangue
 o véu em chamas
 a casa feita de água
 o vento batendo portas e janelas
 ao longo deste corredor feito de palavras
 e como se isso fosse pouco 
eu 
e a tua ausência. 





 Artur do Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Papoilas



E eu disse que havia de levar-te flores. 
E tu perguntaste-me: «Quando?».
 E eu respondi: «Quando morreres». 
E tu fizeste: «Ah!». 
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas». 
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso. 
E eu disse-te: «Porquê?». 
E tu disseste-me: «Porque sim».
 E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde. 
E tu respondeste-me: «Sim». 
E eu disse: «Ainda bem».
 Sim. 





 Fernando Arrabal
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014




O vento é um pedaço de oxigénio disfarçado de fantasma,
 que vagueia a assobiar uma canção que nunca passa de moda. 




 Alejandra Pizarnik

domingo, 30 de novembro de 2014

Da melancolia



Alguém entrou na memória branca, na imobilidade
 do coração. 
 Vejo uma luz debaixo da névoa e a doçura do erro
 faz-me fechar os olhos.
 É a ebriedade da melancolia;como aproximar o
 rosto de uma rosa doente, indecisa entre o perfume e
 a morte 




 Antonio Gamoneda

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Canta-me a alma



Há lugares onde esperar a primavera 
como tendo na alma o corpo todo nu. 
 (...)
É preciso cantar como se alguém
 soubesse como cantar. 




 Herberto Helder

terça-feira, 25 de novembro de 2014




afinal o que importa é não ter medo: 
 fechar os olhos frente ao precipício 
e cair verticalmente no vício.  





Mário Cesariny

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cegueira



Um traço agudo e anónimo, apesar
 de nela o coração fazer publicidade,
 não dá
 da pele a exacta dimensão. 
 Qualquer de nós o sabe, ao exibirmos
 as correias que prendem ao destino o coração
 sentimos 
romper-se a pele sob a cegueira dos tecidos.





 Luís Miguel Nava

domingo, 23 de novembro de 2014

Domingo



Nenhum desejo neste domingo 
 nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente
 os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 
 A mão que escreve este poema 
não sabe o que está escrevendo
 mas é possível que se soubesse 
nem ligasse 




 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Katia Chausheva)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Poemas perfeitos em noites escuras



te remuerden los días 
 te culpan las noches
 te duele la vida tanto tanto 
 desesperada ¿adónde vas? 
 desesperada ¡nada más! 




 Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Não sabe



Diz que não sabe do medo da morte do amor
 diz que tem medo da morte do amor
 diz que o amor é morte é medo
 diz que a morte é medo é amor 
diz que não sabe 




 Alejandra Pizarnik

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Todos os nomes da intranquilidade



Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. 
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
 Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem 
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
 Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo. 
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto. 
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
 Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto. 
Os sentimentos sou eu. 
Os melhores.
 Os piores. 
O beijo. 
A bala. 
(Ou vice-versa). 







 Miguel Martins

domingo, 16 de novembro de 2014

Mar de novembro




Quando eu morrer voltarei para buscar
 Os instantes que não vivi junto do mar 





 Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 15 de novembro de 2014

Uma palavra esquecida



esperar que voltes é tão inútil como o
 sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais
 e no entanto de cada vez que
 a noite se rasga em barulhos e
 um telefone se debruça de
 uma qualquer janela
 sinto que ainda ficou uma
 palavra minha esquecida na
 tua boca e que 
vais voltar
 para
 a
 devolver 




 Alice Vieira

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Emboscada



Abro a casa 
 para o teu silêncio 
Mas não tenho leito 
Para o teu cansaço 




 Mia couto

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Versos afiados contra os dedos



o vento agita as sombras 
na minha mão, lança-me 
vultos, um nome em chamas, versos 
afiados contra os dedos. 
 sempre pressenti a distância mínima
 entre o poema e o medo 
de não saber regressar a casa. 





Renata Correia Botelho

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Nem sei



Todos foram saindo, de mansinho,
 tão calados, 
que eu nem sei 
se fiquei mesmo só.





João Guimarães Rosa

sábado, 8 de novembro de 2014

Eu também



Se eu só pudesse ter um quadro em casa, sabe de que pintor seria? Rothko. 
 São telas quase iguais umas ás outras. Um quadrado , outro por cima. 
E no entanto eu fico ali horas esquecido a olhar para aquilo 




 António Lobo Antunes
 ( Em entrevista a José Mário Silva)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Em que espelho



Eu não tinha este rosto de hoje,
 assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. 
Eu não tinha estas mãos sem força, 
 tão paradas e frias e mortas; 
 eu não tinha este coração que nem se mostra.
 Eu não dei por esta mudança,
 tão simples, tão certa, tão fácil: 
 Em que espelho ficou perdida a minha face? 




 Cecília Meireles

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Labirinto



Sozinha caminhei no labirinto 
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva 
Para buscar a luz dum dia limpo






Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Rusga



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em
 torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já 
eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora 
em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não
 funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus 
 prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio
 de excomunhão, devolva o seu corpo à indiscrição. Corpo
 no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães
 a flor absurda do prazer. 





 Vasco Gato
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Os dias com vista para a melancolia



Vimos da escuridão e somos luz 
ou nascemos da luz e somos sombra? 




 Teresa Balté
 (Foto de Katia Chausheva)



O outono amadurece nos espelhos




 Eugénio de Andrade
 (Foto de Katia Chausheva)

domingo, 2 de novembro de 2014

Dor



Não sei quantas vezes chorei
 a boneca de papelão
 que se desfez na água 
 quando lhe dei um banho. 
 Eu não sabia que podem ser tão breves
 as coisas que abrigamos no próprio coração. 





 Graça Pires

sexta-feira, 31 de outubro de 2014








Interminalvelmente



Entre a folha branca e o gume do olhar
 a boca envelhece
 Sobre a palavra 
a noite aproxima-se da chama
 Assim se morre dizias tu 
Assim se morre dizia o vento acariciando a cintura 
Na porosa fronteira do silêncio 
a mão ilumina a terra inacabada




 Eugénio de Andrade

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Noite



Os gestos mudaram, a iluminação também. 
Conseguimos esconder-nos atrás de nós mesmos.
 A noite, como sempre, vai servindo para esperar. 
De que se vive, afinal? De que se morre? 




Vítor Nogueira