quarta-feira, 31 de março de 2010

Da tristeza

Minha alma está hoje triste até ao corpo.
Todo eu me doo, memória, olhos e braços.
Há como que um reumatismo em tudo quanto sou...




Fernando Pessoa
(Bernardo Soares /Livro do Desassossego)

terça-feira, 30 de março de 2010

Uma palavra


Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada... O amor é a solidão


José Luís Peixoto /Uma Casa Na Escuridão

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da solidão

Começar o dia assim: desenhando passos circulares na lama da azinhaga.
cães, cheiro a estrume, a solidão paga-se logo de manhã cedo, como uma chuva que nos fustiga…estou desatento ao que se passa comigo. não consigo avançar uma linha, dormito mais do que escrevo.
tenho a alma triste.
Ao certo, que quererá isto dizer?


Al Berto (O Medo)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Do cansaço


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Fernando Pessoa
(Alvaro de Campos)

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Na unica forma

Deste-me a tua mão, 
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate


José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 17 de março de 2010

Diz...


Não digas beijo, diz a boca.
Não digas rio, diz a fonte.

Diz apenas.

Albano Martins

terça-feira, 16 de março de 2010

Tu


Tu
que não cabes em casa nenhuma
tu
que vais leve como as nuvens
no outono
habitas em mim e ouço
o teu perfume a tua
respiração
nas rosas que se abrem
e dissipam
no meu poema.
Casimiro de Brito

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cala-te


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugenio de Andrade

Hoje


Levantei-me de madrugada.
Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era


Casimiro de Brito

domingo, 14 de março de 2010

Dias assim

Mar alma na tarde morta
que cortas dedos na luz
Abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus.

Ruy Belo

quinta-feira, 11 de março de 2010

Tudo a arder


O soar
da última neve
aos pés
da rainha negra
retratos
são pedaços de abismo
ou restos de chão firme
já não há mais nada
nem nos livros
nem nas horas
nem nas vozes
está tudo a arder
como se mais nenhuma paisagem
coubesse na varanda dos meus olhos


gil t. sousa

quarta-feira, 10 de março de 2010

Assim eu quereria o meu último poema




Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Manuel Bandeira

terça-feira, 9 de março de 2010

Dias assim


Um desses dias de glória em que tudo me foi dado.
Tudo quanto preciso.
O corpo nu, a mente vazia
e a praia deserta.

Casimiro de Brito

segunda-feira, 8 de março de 2010

Uma mulher


Uma mulher a cantar
de cabelo despenteado.

(Era o tempo das gaivotas
mas o mar tinha secado.)

Pelos seus braços caíam
frutos maduros de Outono,

pelas pernas escorriam
águas mornas de abandono.

(Uma criança juntava
o cabelo destrançado.)

Gaivotas não as havia
e o mar tinha secado.

Eugenio de Andrade



sexta-feira, 5 de março de 2010

Pequeno sismo


Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve....

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 4 de março de 2010

Acende-se a noite



Debruça-te para o interior do meu vazio. Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite.




Al Berto

Alice



Estreia hoje... Estou curiosa

quarta-feira, 3 de março de 2010

Chuva


A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração
Casimiro de Brito

terça-feira, 2 de março de 2010

segunda-feira, 1 de março de 2010