domingo, 31 de agosto de 2014

Os braços desertos



os pássaros soterraram agosto
 e sem lugar um homem cega pela janela
 o mar que jura ter tocado com o sangue
 podia ter sido o amor se não tivesse vindo 
tão directamente da sede
 um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos 
o eco da morte reverbera na pele 
com que vejo a tua ausência encher as ruas
 um choro de papel cai pela terra 
e nunca foi tão tarde ser depois
 daqui onde o grito surdo incendeia 
a refutação da madrugada
 donde o crânio esmaga o coração
 um homem corta pela janela
 a própria certeza de ter sido

não é tarde demais para uma manhã
 que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede 
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste 





Pedro Sena-Lino

sábado, 30 de agosto de 2014



Mrs. Dalloway, 
Mrs. Dalloway, 
sempre dando festas para encobrir o silêncio! 





 Virginia Woolf

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014




Não é a rosas nem a violetas
 nem a jasmim o cheiro
 que me põe fora de mim 





Jorge Sousa Braga

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Eu sei






Toco a tua boca



Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água. 





 Julio Cortázar

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os sulcos da sede



Não tardará a chegar ao fim 
 este agosto que te viu passar com a luz
 a teus pés. Somos eternos, dizias.
 Eu pensava antes na danação
 da alma ao faltar-lhe o alimento
 que lhe trazias. Agora a cidade vive
 do peso incomensuravelmente morto
 dos dias sem a tua presença. Deixo
 a mão correr sobre o papel tentando
 captar o eco de uma palavra,
 um sinal de quem em qualquer parte 
 cintila, e confia ao vento o segredo 
 da nossa tão precária eternidade.





 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dos dias









Recentemente a vida é-lhe feita de um cigarro 
antes da sessão de cinema
 um café depois do sono
 um vodka antes da cama vazia

 não anda mal mas podia andar melhor





 Henrique Manuel Bento Fialho

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Quanto eu gosto de ti



Como eu gosto de ti, ninguém o entenderia. Nem a cama esvaída que me obriga a desprender-me do corpo noutras roturas nocturnas e azedas. Nem a solidão taciturna que escorre devagar nos chuviscos flamejantes do amor. Como eu gosto de ti, nem o mundo o aceitaria. As árvores trépidas, os animais ferinos, a cadência dos lagos, mobília sisuda que ganha a morte sobre o couro crestado. Como eu gosto de ti, só a melodia do poente trova. E se a antemanhã sucumbe nas copas das sequóias - ricocheteando como uma bala célere - perfurando como um comboio alucinado - a incerteza dos teus sinais desmancha-se sobre os meus lençóis na loucura do leito. Como eu gosto de ti, só eu sei, de dentro para dentro, como um confim de baús entreabertos às galáxias chamejantes do céu da boca. Como eu gosto de ti, segredando-me da voz o rasto da tua presença, pernoitando-me de corpo fixo e amor esquivo, a temperança das tuas enchentes. 





 Alice Turvo
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Depoimento



De seguro, 
 Posso apenas dizer que havia um muro 
 E que foi contra ele que arremeti
 A vida inteira.

Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei





 Miguel Torga

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Tão de repente



 Y yo me cubro, yo me envuelvo, me mezo en mi nostalgia preferida, me abrazo a la almohada y lloro, me avergüenzo de mi edad y no comprendo por qué, tan de repente, ya no soy una niña





Alejandra Pizarnik  (Diários)
(Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Fogo posto



Há dias em que sou um corpo que pegou fogo
 e ficou todo em ferida




 Alberto de Lacerda
 (Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Geografia íntima



e quando o teu olhar me percorreu
 na linha breve que contém o corpo 

eu te entreguei o pouco que é meu 





 Romério Rômulo Campos Valadares
(Foto de Cara Stricker) 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Quem guarda segredo



A mais antiga e demorada 
 frase fala do mar logo de início, 
 no desejo de habitar
 os flancos lentos da sua ondulação. 
 A narrativa torna-se depois
 confusa: entre mastros e muros, 
 além do vento, corria o medo. 
 Que estranho amor levou
 a fazer da casa um barco? 
 A cal e a pedra guardam o segredo. 





 Eugénio de Andrade

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E trazem a poesia nos dedos



Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
Não pela cor 
Mas pela vastidão da alma
 E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos 
Ficam para além do tempo
 Como se a maré nunca as levasse 
Da praia onde foram felizes
 Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
pela grandeza da imensidão da alma 
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens
 Há mulheres que são maré em noites de tardes
 e calma. 





 Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Gostas de mim?



(...)
Sem resposta. 
O silêncio saiu ruidosamente dos seus livros.
 O silêncio caiu da sua língua 
e sentou-se entre nós. 
e obstruiu a minha garganta. 
E trucidou a minha confiança. 
Despedaçou cigarros para fora da minha boca.
 Trocámos palavras cegas,
 e eu não chorei,
 e eu não implorei,
 mas a escuridão encheu os meus ouvidos, 
a escuridão atacou o meu coração,
 e algo que tinha sido bom,
 uma espécie de oxigénio bondoso, 
Transformou-se em gás de forno. 
 "Gostas de mim?" 
Que absurdo!
 Que raio de pergunta é essa? 
Que raio de silencio é esse?
 E porque é que eu ando a rondar, 
intrigada com o que é que o silêncio dele disse? 





 Anne Sexton
 (Tradução - Maria Sousa)

sábado, 2 de agosto de 2014

A Mulher Certa








Grito



tropeço em tudo. Nos móveis, nas malas,nas pernas da mesa,nas minhas pernas. 
Não chego a cair: a casa é demasiado pequena. Fico contra uma parede, um armário, apoiada na aresta do fogão. 
No dia seguinte, dói-me todo o corpo. Dispo-me e olho. As nódoas negras.





 Rui Nunes